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Filme europeu de cineasta argentina, na Mubi, transforma crise econômica em sátira afiada sobre classe média Divulgação / Memory

Filme europeu de cineasta argentina, na Mubi, transforma crise econômica em sátira afiada sobre classe média

Descrito por sua diretora, Amalia Ulman, como “uma comédia sobre despejo”, “El Planeta” gira em torno de María e Leonor, mãe e filha que vivem em Gijón, no norte da Espanha, e se veem falidas após a morte do patriarca da família. Ainda assim, seguem se comportando como se nada tivesse mudado: vestem roupas de grife, frequentam restaurantes caros e circulam por ambientes completamente fora de sua realidade financeira, sustentando esse estilo de vida por meio de pequenos golpes, furtos em lojas ou simplesmente acumulando contas que jamais serão pagas. A história se inspira em uma dupla real conhecida como “as falsas ricas de Gijón”, mas Ulman também incorpora experiências pessoais ao enredo, borrando deliberadamente a fronteira entre vivência, ficção e performance.

Mais do que um retrato individual, o filme reflete os efeitos prolongados da crise econômica desencadeada pelo colapso financeiro de 2008. Mesmo anos depois, inúmeras famílias passaram a viver em um estado permanente de precariedade, improvisando para sobreviver enquanto tentavam preservar algum resquício de dignidade social. María e Leonor encarnam esse cenário: são co-dependentes, emocional e economicamente, precisam uma da outra para seguir em frente, mas ambas estão desempregadas e sem perspectivas claras. Leonor, estilista autônoma, consegue trabalhos pontuais, mas permanece na Espanha por conta da morte do pai, um retorno que não representa recomeço, e sim estagnação. O filme não trata da miséria extrema, mas do colapso silencioso da classe média, onde a vergonha de parecer pobre pesa tanto quanto a falta de dinheiro.

Apesar do tema denso, Ulman escolhe abordar a narrativa com leveza e humor, sem jamais cair no mau gosto. O riso aqui funciona como mecanismo de defesa: uma forma de adiar o colapso, de transformar o desespero em ironia, de continuar existindo quando o futuro já não oferece promessas. A vida das protagonistas se constrói como uma encenação contínua, elas não apenas fingem riqueza, mas atuam para o mundo, sustentando uma fantasia social onde aparência vale mais do que solvência.

Filmado com uma câmera Blackmagic Pocket em preto e branco, “El Planeta” foi pensado para ser prático e econômico. A equipe se resumia a apenas quatro pessoas no set, o que favoreceu a improvisação e a espontaneidade das cenas. O resultado é um filme quase caseiro, que aposta em uma forma simples, mas extremamente eficaz de contar uma história. Além de reduzir custos com iluminação e correção de cor, o preto e branco fortalece a identidade visual da obra, criando uma atmosfera indie que remete à crônica cotidiana e ao espírito da Nouvelle Vague, com um tom realista e naturalista. A química entre mãe e filha na vida real atravessa a tela e potencializa a dinâmica emocional do filme.

As transições geométricas e os cortes bruscos reforçam o clima deliberadamente kitsch e humorístico que dialoga com as protagonistas: duas mulheres exageradas, que desejam aparentar mais do que são e sustentam uma fantasia até onde for possível. A voz autoral de Amalia Ulman se constrói justamente nesse terreno ambíguo, entre sarcasmo e vulnerabilidade, subvertendo convenções do cinema narrativo ao mesmo tempo em que reafirma seu nome como uma assinatura singular e reconhecível do cinema contemporâneo.

Filme: El Planeta
Diretor: Amalia Ulman
Ano: 2021
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.