Descrito por sua diretora, Amalia Ulman, como “uma comédia sobre despejo”, “El Planeta” gira em torno de María e Leonor, mãe e filha que vivem em Gijón, no norte da Espanha, e se veem falidas após a morte do patriarca da família. Ainda assim, seguem se comportando como se nada tivesse mudado: vestem roupas de grife, frequentam restaurantes caros e circulam por ambientes completamente fora de sua realidade financeira, sustentando esse estilo de vida por meio de pequenos golpes, furtos em lojas ou simplesmente acumulando contas que jamais serão pagas. A história se inspira em uma dupla real conhecida como “as falsas ricas de Gijón”, mas Ulman também incorpora experiências pessoais ao enredo, borrando deliberadamente a fronteira entre vivência, ficção e performance.
Mais do que um retrato individual, o filme reflete os efeitos prolongados da crise econômica desencadeada pelo colapso financeiro de 2008. Mesmo anos depois, inúmeras famílias passaram a viver em um estado permanente de precariedade, improvisando para sobreviver enquanto tentavam preservar algum resquício de dignidade social. María e Leonor encarnam esse cenário: são co-dependentes, emocional e economicamente, precisam uma da outra para seguir em frente, mas ambas estão desempregadas e sem perspectivas claras. Leonor, estilista autônoma, consegue trabalhos pontuais, mas permanece na Espanha por conta da morte do pai, um retorno que não representa recomeço, e sim estagnação. O filme não trata da miséria extrema, mas do colapso silencioso da classe média, onde a vergonha de parecer pobre pesa tanto quanto a falta de dinheiro.
Apesar do tema denso, Ulman escolhe abordar a narrativa com leveza e humor, sem jamais cair no mau gosto. O riso aqui funciona como mecanismo de defesa: uma forma de adiar o colapso, de transformar o desespero em ironia, de continuar existindo quando o futuro já não oferece promessas. A vida das protagonistas se constrói como uma encenação contínua, elas não apenas fingem riqueza, mas atuam para o mundo, sustentando uma fantasia social onde aparência vale mais do que solvência.
Filmado com uma câmera Blackmagic Pocket em preto e branco, “El Planeta” foi pensado para ser prático e econômico. A equipe se resumia a apenas quatro pessoas no set, o que favoreceu a improvisação e a espontaneidade das cenas. O resultado é um filme quase caseiro, que aposta em uma forma simples, mas extremamente eficaz de contar uma história. Além de reduzir custos com iluminação e correção de cor, o preto e branco fortalece a identidade visual da obra, criando uma atmosfera indie que remete à crônica cotidiana e ao espírito da Nouvelle Vague, com um tom realista e naturalista. A química entre mãe e filha na vida real atravessa a tela e potencializa a dinâmica emocional do filme.
As transições geométricas e os cortes bruscos reforçam o clima deliberadamente kitsch e humorístico que dialoga com as protagonistas: duas mulheres exageradas, que desejam aparentar mais do que são e sustentam uma fantasia até onde for possível. A voz autoral de Amalia Ulman se constrói justamente nesse terreno ambíguo, entre sarcasmo e vulnerabilidade, subvertendo convenções do cinema narrativo ao mesmo tempo em que reafirma seu nome como uma assinatura singular e reconhecível do cinema contemporâneo.
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