Luca Guadagnino conseguiu a façanha de tornar-se queridinho da indústria, da crítica e, claro, do público — com todo o mérito. Corajoso, o diretor tem se notabilizado por abordar temas espinhosos sem vitimismo e com muita classe, como se vê mais uma vez em “Até os Ossos”, um show de estranha beleza no qual discorre acerca da força da solidão sobre o amor, que não floresce num mundo onde a selvageria é a única regra. Guadagnino contempla sentimentos adversos como o marujo diante do oceano proceloso, esperando a tempestade perfeita, a fim de exercitar o dom de esticar a corda até que não se saiba para onde vai o barco. Aqui, dois personagens malditos unem-se num abraço insano, e o vulto da morte vem atrás.
Maren é uma devoradora de homens — literalmente. Ela ataca os desavisados que encontra na Virginia da década de 1980, parece arrepender-se depois de saciada, porém não se livra do apetite voraz por carne humana, a ponto de afugentar o próprio pai, que a deixa quando ela chega à maioridade. A adaptação de David Kajganich para o romance homônimo de Camille DeAngelis, de 2015, ilustra a série de dilemas que aflige uma parte do grupo, enquanto outros desses indivíduos saciam sua fome sem nenhum peso na consciência, apenas obedecendo a sua índole amoral de predadores, sem escrúpulos. A fotografia de Arseni Khachaturan congela uns lances arrebatadores da natureza em harmonia, justamente para exacerbar o contraste entre o certo e o que não pode ser domado, preparando o encontro de Maren com alguém que pode ser ou sua salvação ou sua ruína sem volta. E então o filme cresce.
Lee é um andarilho que segue para o Kentucky tentando recuperar alguma reminiscência do que já fora um dia. Aspirações inconfessáveis acompanham-no, e no instante em que Maren atravessa-lhe o caminho, uma paixão anticonvencional toma corpo, junto com uma avalanche de cadáveres, sem remorso, num pacto diabólico que remonta talvez a vidas pretéritas ao longo das quais tiveram jornadas menos infelizes. Descoberto por Guadagnino em “Me Chame pelo Seu Nome” (2017), Timothée Chalamet ainda é o talismã do diretor, mas corre o risco de perder o posto para Taylor Russell, uma anti-heroína mais e mais perturbadora à medida que o longa vai cristalizando a intenção de defender o amor bandido de Lee e Maren. “Até os Ossos” é dos dois, mas ainda assim Guadagnino arranja fôlego para passagens em que Mark Rylance impressiona na pele de Sully, zumbi 5G tão realista que se vive por aí, a nos espreitar.
★★★★★★★★★★




