Uma garota de 13 anos, chamada Marta, se muda para Reggio Calabria, no sul da Itália, com sua mãe e irmã. Submetida à catequese, ela passa a questionar a fé. Filme de Alice Rohrwacher, lançado em 2011, o longa-metragem acompanha a menina enquanto amadurece, procura seu lugar no mundo e se vê diante de questões filosóficas e existenciais durante os ensinamentos religiosos. Interpretada por Yile Yara Vianello, uma adolescente comum, sem qualquer experiência em atuação, assim como boa parte do elenco, Rohrwacher opta por corpos e rostos não moldados pelo cinema justamente para alcançar um realismo e um naturalismo mais intenso. A diretora escreveu cerca de doze versões do roteiro até chegar à definitiva e, como não cresceu sob a doutrina católica, precisou ler livros litúrgicos, frequentar aulas de catecismo e observar atentamente a dinâmica social e religiosa local.
Marta fala pouco. Não por timidez, mas porque é, acima de tudo, uma personagem em estado de escuta. Viveu fora por muito tempo e agora retorna a um território que deveria ser familiar, mas que lhe soa estrangeiro. Ela observa tudo e todos com um desconforto constante, tentando decifrar regras sociais nunca explicadas, códigos implícitos que todos parecem dominar, menos ela. A câmera de Rohrwacher acompanha essa experiência de deslocamento com curiosidade e cautela, como se também estivesse tateando a cidade, explorando suas fissuras, seus silêncios e seus pequenos abismos cotidianos.
Reggio Calabria não é apenas cenário: é agente. Um espaço marcado pelo abandono institucional, onde a Igreja ocupa o lugar do cuidado que não chega do Estado, funcionando menos como espaço espiritual e mais como estrutura de organização social. A catequese, nesse contexto, não ensina apenas fé, ensina disciplina, obediência, adaptação. Marta passa a frequentar as aulas religiosas sem nenhuma opinião formada sobre Deus. Não há cinismo, rejeição ou rebeldia. Pelo contrário: há curiosidade. Mas, à medida que a convivência avança, ela se depara com uma fratura cada vez mais profunda entre discurso e prática. Durante as aulas, é ensinada sobre amor, compaixão e cuidado; fora delas, imperam hierarquias rígidas, pequenas violências naturalizadas e uma inquietante ausência de culpa.
O episódio dos filhotes de gatinhos é o ponto de ruptura. Ao encontrar uma caixa cheia de vidas frágeis e tentar protegê-las, Marta vê a situação ser resolvida de forma chocante: a professora de catequese, Santa (Pasqualina Scuccia), arranca a caixa de suas mãos e a entrega a um funcionário da igreja para que os animais sejam mortos. Não há debate, escândalo ou hesitação. O gesto não é tratado como exceção moral, mas como procedimento. É ali que Marta compreende algo fundamental: aquela fé não falha, ela funciona exatamente como foi estruturada. A vida, mesmo sendo criação divina, é descartável quando atrapalha a ordem, o conforto ou a conveniência.
Esse choque não destrói a fé de Marta; destrói sua confiança nos mediadores. Ela percebe que aqueles adultos que falam em Deus não vivem segundo aquilo que ensinam, e pior, não parecem se incomodar com isso. O problema não é Deus, nem a espiritualidade, mas a incoerência entre palavra e ação. Marta leva o que aprende a sério demais para aceitar essa contradição como algo normal. Seu questionamento nasce justamente daí: da seriedade ética com que encara a fé. Ela não busca provocação, mas coerência. E o que encontra é um sistema que usa a religião como forma de organização social, não como exercício de responsabilidade moral. Ao perceber isso, Marta perde algo silencioso e irreversível: a possibilidade de terceirizar sua ética, de delegar o pensamento, de confiar cegamente.
Sem clímax, o filme se encerra deixando a reflexão para o espectador. A fé, afinal, seria um espaço de transformação genuína ou um refúgio confortável para esconder a culpa de sermos incoerentes diante daquilo que Jesus ensina? Marta não responde. Ela apenas se recusa a aceitar uma fé que não sobreviva à própria realidade.
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