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Com Emma Stone e Jesse Plemons, o retorno do diretor que fez do bizarro sua marca chega ainda mais incômodo na Disney+ Divulgação / 20th Century Studios

Com Emma Stone e Jesse Plemons, o retorno do diretor que fez do bizarro sua marca chega ainda mais incômodo na Disney+

Em “Tipos de Gentileza”, dirigido por Yorgos Lanthimos e estrelado por Emma Stone, Jesse Plemons e Willem Dafoe, personagens decidem sair de um caminho imposto e descobrem que liberdade raramente vem sem contrapartida. Logo no primeiro segmento, um homem tenta reorganizar sua rotina para finalmente tomar decisões próprias. A ação parece modesta, mas encontra resistência imediata de quem controla regras, horários e permissões. Cada tentativa de desvio cobra algo concreto, seja acesso, conforto ou segurança, e o filme deixa claro desde cedo que autonomia, aqui, nunca é gratuita.

O segundo bloco desloca o conflito para o espaço doméstico. Um policial chamado Daniel (Jesse Plemons) recebe de volta a esposa Liz (Emma Stone) após um acidente que deveria ter encerrado a história dela. Ele decide observá-la com atenção, buscando sinais de que algo mudou. O problema é que a suspeita cresce mais rápido do que as provas. Daniel insiste, testa limites, impõe pequenas interdições, e cada passo o afasta da autoridade que acredita ter. O efeito é imediato: o ambiente da casa se torna instável, a confiança evapora e o controle muda de mãos de forma silenciosa, quase constrangedora.

No terceiro segmento, Lanthimos apresenta um casal envolvido com um grupo espiritual liderado por figuras carismáticas, entre elas o personagem de Willem Dafoe. A missão é clara: localizar alguém destinado a se tornar um guia espiritual. A busca envolve regras rígidas, sinais ambíguos e decisões que não admitem recuo fácil. A cada pista seguida, surgem obstáculos práticos que limitam recursos e ampliam o risco de frustração. O filme observa com ironia como a fé, quando organizada como tarefa, cobra esforço logístico, obediência e uma dose considerável de autoengano.

Humor que aperta, não alivia

Apesar do peso dos temas, “Tipos de Gentileza” é frequentemente engraçado. Não porque as situações sejam leves, mas porque os personagens insistem em tratá-las como normais. Lanthimos aposta em diálogos secos e reações deslocadas para extrair humor do desconforto. As tentativas de manter uma conversa educada enquanto tudo desmorona ao redor produzem risos curtos e nervosos. Esse humor tem efeito imediato no ritmo: alonga momentos de tensão, expõe vaidades e deixa os personagens ainda mais presos às próprias escolhas.

O flerte com o horror surge sempre ligado a decisões práticas de autoproteção. Quando alguém resolve investigar demais, confrontar o outro ou seguir uma regra até o fim, o risco se materializa. Não há monstros ou sustos fáceis, mas uma sensação constante de que algo saiu do eixo. Lanthimos usa enquadramentos rígidos e pausas calculadas para retardar informações importantes, aumentando a pressão sobre personagens que já operam no limite. O resultado é um desconforto persistente, que se acumula sem aviso.

Três histórias, uma obsessão comum

Embora independentes, os segmentos compartilham a mesma obsessão: controlar o próprio papel em relações assimétricas. O filme é claro ao mostrar como cada tentativa de impor vontade gera um efeito mensurável, seja perda de acesso, inversão de autoridade ou exposição pública do ridículo. Lanthimos não julga seus personagens, mas tampouco os protege. Ele observa, registra e deixa que as consequências falem por si, com uma frieza que beira o humor negro.

Sem revelar seus desfechos, vale dizer que “Tipos de Gentileza” funciona melhor quando abraça a simplicidade cruel de suas situações. Não é o filme mais abstrato do diretor, nem o mais provocador, mas talvez um dos mais claros. Ao trocar metáforas grandiosas por ações pequenas e constrangedoras, Lanthimos cria uma experiência mais acessível e, paradoxalmente, mais incômoda. Aqui, cada escolha pesa, cada gesto conta, e ninguém sai exatamente como entrou.

Filme: Tipos de Gentileza
Diretor: Yorgos Lanthimos
Ano: 2025
Gênero: Comédia/Drama/Terror
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★