Militares rebeldes são um paradoxo e um perigo. A urgência por autonomia de gente cuja obrigação é cumprir ordens inspira a desconfiança e o temor por ocultar ideias que resultam em opróbrio e morte, mas, claro, há circunstâncias em que a bravura deve sobrepor-se à hierarquia, justamente para evitar danos que fogem às estratégias. Arrojo às vezes pode ser a diferença entre perder-se ou salvar-se, como Steve Barnett quer ilustrar em “O Valente”, um acelerado thriller político sobre escolhas feitas num cenário de desesperança e progressivo caos, a fronteira desmilitarizada entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. Em seu longa de estreia, Barnett narra as desventuras de um herói improvável em meio a sequências de combate pródigas em tecnologia. Nada além.
O diretor flerta com o panfleto militarista ao concentrar-se na figura de Edward Brockman, um primeiro-sargento do exército americano lotado em Camp Humphreys, a maior base dos Estados Unidos no exterior, na milenar Pyeongtaek, na região norte sul-coreana. Barnett e os corroteiristas Daniel Myrick e Eric Tipton preferem deixar de lado políticos e burocratas e examinar com mais acurácia a rotina, os sonhos e as muitas frustrações de Brockman, um técnico que ainda planeja abandonar a farda e ir trabalhar no Vale do Silício, mas não sabe bem como o fará. Barnett, Myrick e Tipton baseiam-se numa história real, como a de tantos membros das Forças Armadas, para elaborar uma reflexão sobre a inconstância da vida da caserna, durante a qual oficiais e praças estão sujeitos a reveses e trapaças do destino, mais frequentes e bem mais arrasadoras. Quando o helicóptero em que ele e outros quatro tripulantes cai, o enredo, afinal, surge.
Não raro, foi nas horas de grandes enroscos que a humanidade viu nascer seus vultos, homens e mulheres que se vestiram da aura de personalidade da História graças a um desempenho de bravura ao longo de uma série interminável de confrontos. Com a morte de Chris Lebold, o comandante interpretado por Callan Mulvey, Brockman assume a liderança da missão, sempre carecendo de certezas, mas também íntegro, disposto a encontrar um abrigo seguro para os sobreviventes, que não podem ser resgatados, por estarem num território livre do Estado atento e de seus braços de defesa. Cada vez mais onipresente na trama, Chase Stokes conduz a narrativa para um arco mais diverso, no qual cabe a aproximação de Brockman junto a uma família de produtores rurais, trecho em que “O Valente” faz jus ao título. Barnett mira clássicos do gênero como “Falcão Negro em Perigo” (2001), de Ridley Scott, mas um pouco mais de autoconfiança cairia bem.
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