Ascender socialmente, até a Alta Idade Média, era quase impossível. A sociedade se organizava por ordens jurídicas e simbólicas, não apenas por condição material. Quem nascia nobre pertenceria àquela classe por meio de casamentos entre iguais, alianças familiares e transmissão hereditária de privilégios. Da mesma forma, quem nascia camponês e pobre, ainda que melhorasse pontualmente suas condições de vida, continuaria juridicamente preso àquela posição social. Não se tratava apenas de ter mais ou menos dinheiro, mas de pertencer legalmente a um lugar no mundo.
A partir do século 11, com o surgimento da burguesia, o jogo começou a mudar. Os burgos passaram a se formar ao redor dos feudos, criando centros urbanos e comerciais que operavam fora da lógica feudal tradicional. Era um espaço paralelo, regido por contratos, moeda e circulação de mercadorias. Ali surgiam oportunidades para pessoas que jamais imaginariam condições melhores de vida. Quem sabia negociar, movimentar mercadorias, dinheiro e crédito tornava-se indispensável: todos dependiam desses intermediários para adquirir bens materiais e manter a economia em funcionamento.
Ainda assim, o processo foi lento. A ascensão não era automática nem democrática. Comprar títulos, legitimar-se socialmente, casar-se acima da própria condição e ser aceito pelas elites levou séculos. A burguesia não derrubou a hierarquia; ela criou uma nova forma de disputar o topo.
Hoje, esse muro social ainda existe, mas é menos rígido e mais flexível. A mobilidade passou a ser apresentada como possível, ainda que continue profundamente desigual. Passou a depender menos de nome, títulos e heranças, e mais de educação, profissão e reconhecimento social. Governos democráticos praticamente extinguiram as realezas em diversas partes do mundo, mas acreditar que as hierarquias deixaram de ser duras e difíceis de atravessar é ingenuidade. O discurso meritocrático vendido por coaches ignora a realidade estrutural e só convence quem nunca precisou confrontá-la.
Nesse cenário, a internet se tornou um novo instrumento de transformação social. Surgiu uma nova espécie de celebridade: os influenciadores digitais. Não é mais necessário deter capital cultural tradicional, formação artística institucional ou habilidades legitimadas pelas elites. Basta saber se expor, despertar curiosidade e manter atenção. Filmar-se acordando, em festas ou restaurantes passou a gerar seguidores e, consequentemente, dinheiro. Tornar-se milionário com um canal no YouTube ou um perfil no TikTok virou o grande sonho da Geração Alfa.
É a partir dessa lógica que a cineasta francesa Agathe Riedinger constrói sua história em “Diamante Bruto” (2024). Versão ampliada de um curta anterior, o longa acompanha Liane (Malou Khebizi), uma adolescente que sonha em se tornar famosa na internet. Ela vive com a mãe e a irmã mais nova em uma realidade pobre e precária na periferia de Fréjus. Sem vislumbrar qualquer futuro possível além daquele, Liane aposta na própria aparência como meio de ascensão social, e, mais do que isso, como promessa de amor, admiração e pertencimento, sentimentos que sempre lhe foram negados.
Riedinger filma Liane frequentemente isolada em cena, mesmo quando cercada por outras pessoas. A composição visual enfatiza sua solidão, como se ela nunca ocupasse plenamente os espaços que atravessa. A fama, para Liane, não significa apenas uma vida melhor; ela representa a possibilidade de finalmente ser vista, desejada e validada. É uma resposta emocional a uma carência profunda, não um capricho superficial.
O filme observa os rituais diários que Liane constrói para performar alguém que não é. Apesar de inexperiente com homens, ela se veste de forma sensual, investe em maquiagens pesadas, aplica megahair sempre que sai de casa. As sobrancelhas são ampliadas minuciosamente para tornar suas feições mais impactantes; a boca parece triplicar de tamanho. A aparência é uma farsa cuidadosamente calculada para fazê-la parecer mais velha, mais segura, mais desejável. Tudo é performance, e sobrevivência.
Quando recebe um convite para participar de um teste de um reality show que será gravado nos Estados Unidos, Liane intensifica sua presença nas redes sociais, compra vestidos de grife e espalha pela cidade que será famosa. Sua vida passa a girar em torno de uma promessa que pode nunca se concretizar. Nesse intervalo, ela conhece Dino (Idir Azougli), um rapaz simples que, diferentemente dos outros, parece enxergar Liane para além da máscara que ela construiu.
Liane toma decisões pouco inteligentes e frequentemente autossabotadoras, colocando em risco sua própria ambição. Ainda assim, é impossível não torcer por ela. Não porque seus objetivos sejam nobres, mas porque são compreensíveis. Liane precisa se livrar da mãe, uma figura irresponsável que prioriza namorados ocasionais em detrimento das filhas. Há também a irmã mais nova, que vê em Liane uma figura de proteção mais sólida do que a própria genitora. Essas crianças precisam de um ambiente minimamente seguro, e Liane pode ser a única porta de saída.
“Diamante Bruto” é um filme de anticlímax. Nada de grandioso acontece, e quando algo parece prestes a explodir, a narrativa recua. Porque na vida real não há trilhas sonoras épicas nem momentos catárticos garantidos. Liane é o retrato de uma geração para quem a visibilidade se tornou a única moeda possível. Quando todas as outras portas estão fechadas, ser influencer deixa de ser vaidade e passa a ser estratégia de sobrevivência.
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