Quando duas pessoas dançam, estabelece-se um diálogo que dispensa palavras, no qual os gestos revelam desejos e emoções contidas. Mesmo coreografados, os movimentos estão repletos de uma cornucópia de intimidade, confiança, despudor e certa truculência, e dançar implica ouvir o outro, respeitar seu tempo, adaptar-se a ele. Maus passos podem ser corrigidos com boa sintonia, e a proximidade dos corpos leva a um aflorar de sentimentos até então desconhecidos, que podem dar em amor, a alma que habita um par de corações. A frase de Aristóteles (384 a.C. — 322 a.C.) abre “10Dance”, um melodrama corajoso, sobre um romance (quase) proibido. Keishi Otomo desdobra a série de mangás “BL” (“Boys’ Love”), de Inouesatoh, em 128 minutos de delicadeza, sedução e intrigas.
O ridículo, o patético, o dramático da vida tem tanta beleza quanto a história de amor mais tolamente serena, com a ressalva de que histórias de amor serenas podem nunca fazer-nos ter o gosto do devaneio que aparta nossas vidas da espiral de angústia que todos os outros homens enfrentam. Shinya Suzuki e Shinya Sugiki, dois aclamados dançarinos rivais, resolvem aprender o estilo um do outro para participar de um torneio. Até aí, morreu o Neves, e o diretor e o corroteirista Tomoko Yoshida batem na tecla da simplicidade para capturar um público diverso, que poderia mostrar-se avesso à temática que pretendem desenvolver. Concorrentes que acabam mais próximos do que desejavam não chega a ser nada criativo, mas, como sói acontecer em casos assim, vai crescendo no espectador a vontade de ver até quando essa ideia aguenta, e ela aguenta bastante, graças à dupla de protagonistas.
Campeão de ritmos latinos, Suzuki está sempre tentando compensar uma suposta inferioridade em relação a Sugiki, o mais premiado bailarino de dança de salão, e Otomo recheia a trama com sequências nas quais a harmonia dos sentidos é a métrica. Aos poucos, as desavenças entre os dois cedem lugar ao desejo e daí à paixão e ao envolvimento romântico mais judicioso — apesar de alguns exageros, como a cena em que se beijam durante um número, misto de realidade e delírio, ameaçarem botar a perder um esforço por inclusão e tolerância. Necessário, contudo, é louvar o desempenho de Ryoma Takeuchi e Keita Machida, igualmente bons tanto nas passagens em que Suzuki e Sugiki dividem o palco como naquelas em que buscam uma vida conjugal. Malgrado acabe por reproduzir um rol de estereótipos, “10Dance” foge da tentação de jogar para a plateia.
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