Desde o primeiríssimo instante em que se sente fazendo parte do mundo, percebe-se um ser dotado de alguma razão e cheio de questões fundamentais que só ele mesmo é capaz de equacionar, o homem se dá conta de que viver não é nada fácil e que a luta pela sobrevivência força-nos a incorporar uma postura agressiva diante dos outros, quiçá até violenta, o que fazemos muitas vezes de bom grado e sem qualquer sinal de esforço, já que essa é a nossa verdadeira natureza. Alguém que resolve ganhar a vida caçando outras pessoas toma por bússola uma moral cinzenta, e é assim que vibra “Alvo da Máfia”. O tailandês Wych Kaosayananda tem uma obsessão por perseguições, lutas, tiroteios, dispostos em estética noir, de chuva e breu, tudo milimetricamente pensado para fisgar a velhos admiradores e novos fãs. Dá certo.
Da mesma forma que a vida prepara suas armadilhas e impõe seus caprichos, também subverte seus próprios planos, fazendo com que pessoas de histórias e destinos aparentemente semelhantes se cruzem, com tamanha naturalidade que poder-se-ia dizer que tinham um encontro marcado. A força do roteiro de Peter M. Lenkov e Ken Solarz reside justamente na contraposição de brutalidade e um grau de esperança, que o personagem central evoca. William Bang (sim, é esse o seu sobrenome) ascende rápido na hierarquia do crime organizado da Tailândia, a ponto de ser tratado como filho por Morgan Cutter, o poderoso chefão vivido por Peter Weller. Bang encarrega-se de dar cabo dos muitos desafetos de Cutter, que recebe vídeos das execuções e sente-se tranquilo para tirar proveito da fortuna angariada no submundo. O diretor deixa no ar um descompasso nesse relacionamento, ideia que irá se confirmar.
Kaosayananda reserva para seu filme uma cadência formulaica, concentrada quase inteiramente no protagonista, o personagem-título, na versão original. Numa de suas missões, Bang sofre um duro revés, leva alguns tiros, fica entre a vida e a morte, e só escapa porque consegue quem lhe doe um coração, um homem que não resiste a um acidente no carro em que também estavam a esposa e o filho recém-nascido do casal. Pode-se supor o que acontece a seguir, depois que ele sabe da identidade da mulher e a procura, mas nem por isso narrativa transforma-se num invencível marasmo. Numa bem-cuidada reviravolta, o diretor faz a revelação que dá um fôlego renovado ao longa, e desemboca no acerto de contas entre Cutter e Bang. Nesse ponto, Jack Kesy ganha de vez a simpatia do espectador, fazendo com que esse emaranhado de referências e gêneros valha a pena. “Alvo da Máfia” não é nenhuma obra-prima. Mas é divertido.
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