Em Chicago, o cirurgião Paul Kersey atende feridos por tiros como rotina e volta para casa tentando manter a violência do lado de fora. No remake de 2018 “Desejo de Matar”, Bruce Willis conduz esse médico ao colapso doméstico ao lado de Elisabeth Shue e Vincent D’Onofrio, sob direção de Eli Roth. Depois que invasores atacam sua família e a polícia demora a entregar nomes, Kersey decide caçar os responsáveis por conta própria, e coloca sua vida profissional e pessoal sob suspeita.
A agressão rearranja o cotidiano com força administrativa: hospital, delegacia, seguro, telefonemas, esperas. Kersey pressiona investigadores por avanço e esbarra em prazos, falta de testemunhas e uma cidade acostumada a crimes sem solução rápida, o que empurra o caso para o fundo de uma lista maior. Em casa, a ausência da esposa e a condição crítica da filha transformam cada visita em cobrança silenciosa, e ele passa a dormir pouco e a circular mais. Quando entende que o calendário oficial não acompanha a sua urgência, ele começa a buscar controle fora das regras, aceitando que isso aumenta a chance de ser preso.
Arma abre um atalho perigoso
Kersey compra uma arma e tenta reduzir improviso com treino, porque sabe que um disparo errado cria culpa, prova e punição de uma vez. O recurso resolve o medo de estar desarmado, mas adiciona outro: carregar e usar o revólver o obriga a calcular câmeras, testemunhas e a resposta policial. Ele passa a circular por áreas onde a violência se repete e escolhe momentos em que acredita ter vantagem, como se pudesse transformar a rua em sala de cirurgia. Cada sessão de treino encurta a distância entre intenção e ato, e torna o gatilho um atalho que ele passa a justificar em voz baixa.
As primeiras intervenções ampliam o caso sem fechar a ferida original. Vítimas escapam, curiosos filmam, e relatos incompletos se espalham com a mesma rapidez que a polícia tenta conter. Kersey busca sumir depois de cada ação, mas o corpo denuncia pressa: respiração curta, mãos tensas, atenção dividida entre alvo e fuga. Ele tenta preservar o hospital como disfarce e como rotina, porém o cansaço encurta o autocontrole e torna fácil repetir trajetos e horários. A cada noite, ele aumenta o número de pessoas capazes de descrevê-lo, e o anonimato começa a se desgastar.
Mídia transforma ação em pista
Um registro amador circula e entrega ao público uma imagem parcial, suficiente para produzir convicção e insuficiente para sustentar certeza. A imprensa e as conversas de rua disputam a utilidade do vigilante, e o apelido Grim Reaper aparece como forma de transformar medo em personagem. Para Kersey, a consequência é prática: a caçada deixa de ser só pessoal e vira assunto público, o que atrai criminosos interessados em localizar o atirador e cidadãos tentados a imitá-lo. Quanto mais a cidade comenta, mais ele perde o benefício do anonimato, e cada saída passa a exigir disfarce e pressa.
A atenção pública altera o ritmo da polícia. Investigadores precisam responder a mortes sem assinatura enquanto lidam com pressão por resultado, e qualquer padrão sugerido por manchetes se torna pista ou distração. Kersey tenta manter distância, mas enfrenta a contradição central da sua escolha: para encontrar quem atacou sua casa, ele precisa se aproximar do circuito de violência que evita, e para agir, precisa estar onde a violência acontece. O hospital, onde ele vê ferimentos e ouve fragmentos de histórias, vira um ponto de contato que pode entregá-lo, e ele termina um plantão já dividido entre salvar vidas e proteger o próprio segredo.
Investigação encurta a margem
Com o cerco apertando, a polícia cruza horários, locais e descrições, e Kersey percebe que repetir rotas facilita ser rastreado. Ele muda de caminho, altera horários, evita conversar com estranhos e passa a tratar cada esquina como ponto de observação, não como passagem. Frank, o irmão, tenta puxá-lo para a vida anterior e cobra uma saída que não destrua o que ainda resta da família, mas essa conversa também produz vigilância doméstica e perguntas inconvenientes. Quando entende que até aliados podem virar testemunhas involuntárias, Kersey corta contatos e passa a agir sem aviso, acumulando solidão como custo.
A mesma pressão que empurra Kersey para a rua também reduz suas opções dentro de casa. Cada dia sem resposta mantém a filha suspensa em um tempo que não avança, e cada ação pública aumenta a chance de confronto com policiais que não sabem quem ele é. Ele escolhe entre seguir um indício e preservar anonimato, agir agora e esperar por um sinal melhor, entrar em uma área perigosa e recuar para manter controle. No fim de uma noite, ele ajusta o plano para caber nessa margem estreita, volta a carregar a arma e sai novamente, aceitando que a próxima decisão vai cobrar um preço imediato.
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