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Na Netflix: a comédia romântica que conserta um dia ruim — perfeita pra ver sozinho e terminar querendo mandar mensagem Divulgação / Columbia Pictures

Na Netflix: a comédia romântica que conserta um dia ruim — perfeita pra ver sozinho e terminar querendo mandar mensagem

Em Oahu, Henry Roth se aproxima de Lucy Whitmore num café e tenta repetir o gesto no dia seguinte, sem reconhecer reação alguma. Em “Como Se Fosse a Primeira Vez”, Peter Segal dirige Adam Sandler, Drew Barrymore e Rob Schneider numa comédia romântica em que ela acorda sempre no mesmo ponto da própria vida, sem guardar novas lembranças. Henry quer avançar do flerte para um vínculo real, mas cada manhã apaga o crédito conquistado e devolve o casal à estaca zero.

Henry chega a esse impasse com um hábito útil: ele trabalha com animais marinhos, conversa com turistas e empilha despedidas rápidas para manter livre uma viagem já planejada. A repetição lhe favorece, porque ele controla o começo e o fim de cada aproximação, e o custo emocional fica baixo. Lucy quebra essa lógica ao exigir presença contínua, e a consequência prática é que Henry passa a investir tempo e exposição numa relação que não oferece garantia de continuidade.

Rotina montada para proteger Lucy

O pai e o irmão de Lucy sustentam a repetição dela por um motivo direto: evitar que ela sofra de novo ao descobrir, de novo, o que perdeu. Eles controlam horários, restringem novidades e vigiam quem chega perto, porque qualquer surpresa vira choque e pode derrubar o dia inteiro. Quando Henry percebe a regra, ele precisa escolher entre recuar para não piorar a situação ou negociar algum espaço dentro de um esquema já armado, e a primeira consequência é um acesso sempre condicionado.

Acesso diário exige prova nova

Para voltar a entrar no cotidiano dela, Henry transforma cada aproximação numa tarefa de curto prazo: ele cria encontros casuais, mede a reação do momento e tenta encurtar a distância antes que a noite chegue. A barreira é mecânica e implacável, porque a memória não guarda o que aconteceu, e a intimidade conquistada na tarde anterior vira desconhecimento pela manhã. A cada tentativa, ele perde tempo, gasta energia e corre o risco de virar apenas mais um estranho insistente.

Henry passa a usar recursos simples para tornar o recomeço menos desigual: bilhetes, fotos e um resumo do que já foi dito, tudo calibrado para não virar agressão. Ele precisa decidir o que revelar e quando, porque informação demais pode ferir Lucy, e informação de menos mantém o vínculo num nível superficial. O amigo vivido por Rob Schneider serve como alívio e como lembrete de que a rotina cansa, e o resultado é um romance que avança por pequenos ganhos e recaídas imediatas.

A pressa aumenta o risco

Henry acelera o passo quando entende que o tempo, para ela, tem um teto diário. Ele tenta oferecer provas rápidas de confiabilidade, aproxima Lucy de novas experiências e empurra o relacionamento para além do encontro agradável. A barreira agora é ética: conquistar alguém que esquece exige cuidado com consentimento, porque o sim de hoje não garante o sim de amanhã. Quando ele insiste demais, a consequência aparece como desconfiança e como desgaste nos que tentam protegê-la.

O pai endurece as regras ao notar o custo dessa insistência e tenta cortar o vínculo antes que ele se transforme em trauma repetido. Para Henry, a saída prática volta a ser a fuga, e a promessa antiga de deixar a ilha, sempre adiada, vira plano concreto. Entre a vontade de permanecer e a ordem de se afastar, ele perde acesso de uma vez e passa a carregar sozinho o peso de ter provocado, mesmo sem intenção, uma nova turbulência.

Consentimento refeito a cada manhã

Para reduzir o impacto sem fechar a porta de vez, a família reconfigura a rotina e permite que Lucy comece o dia com um pacote de informação que ela mesma pode aceitar ou rejeitar. O instrumento mais importante vira um registro preparado para atualizar a realidade sem depender de lembranças, e isso desloca a decisão para a própria Lucy, todas as manhãs. A consequência é um pacto frágil, renovado por escolha, que mantém o romance em estado de teste constante.

Peter Segal sustenta esse equilíbrio com ritmo de comédia e pausas de drama, sempre coladas à logística do esquecimento. Sandler age como alguém que precisa planejar e improvisar, ao passo que Barrymore alterna leveza e susto sem perder a dignidade da personagem. Quando a câmera volta aos mesmos lugares, o retorno tem função narrativa: ele marca o custo do reinício e mede o quanto Henry consegue permanecer presente. O dia termina, o controle se dissolve, e o próximo encontro volta a depender de uma apresentação paciente.

Filme: Como Se Fosse a Primeira Vez
Diretor: Peter Segal
Ano: 2004
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★