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O filme que aparece em todas as listas de “maior de todos” está na Netflix Divulgação / Columbia Pictures

O filme que aparece em todas as listas de “maior de todos” está na Netflix

A missão começa com limites claros e expectativas baixas: observar, fazer contatos, voltar com um relato útil. Em “Lawrence da Arábia”, David Lean conduz Peter O’Toole, Omar Sharif e Alec Guinness por uma guerra em que alianças valem tanto quanto munição. O conflito central se estabelece cedo: ao tentar aproximar a Revolta Árabe e os objetivos britânicos contra o Império Otomano, T. E. Lawrence precisa escolher entre cumprir o papel de observador ou assumir iniciativa suficiente para manter a aliança funcionando sem se tornar dono dela.

Em vez de operar por recados entre oficiais, Lawrence procura o príncipe Faisal e transforma a aproximação em trabalho de campo, feito de conversa, presença e risco. O que trava o avanço não é falta de coragem, mas falta de confiança: grupos que dividem o inimigo não dividem comando, e um estrangeiro pode virar pretexto para ruptura. Ao se aproximar de Sherif Ali, ele ganha entrada para o deserto e também um fiscal severo dos seus limites, porque cada promessa passa a ser cobrada como entrega. O risco de falhar deixa de ser teórico e passa a ter nome e rosto.

Aqaba altera o relógio da guerra

Quando a campanha ameaça se dispersar em disputas internas, Lawrence aposta numa ação que muda a escala do projeto: atravessar o Nefud para atacar Aqaba por terra, por um caminho considerado improvável. A escolha nasce da urgência de produzir um fato que reorganize lealdades, e a travessia impõe água curta, orientação difícil e disciplina instável em um grupo que não responde a uma única cadeia de comando. Lean dá peso a essa aposta com um gesto seco: um fósforo apagado com um sopro e, num corte direto, o quadro salta para um horizonte de areia, fazendo a aposta virar compromisso.

A tomada de Aqaba transforma o tenente em credencial ambulante. A conquista entrega um porto e abre acesso a suprimentos, mas também eleva a conta: o feito vira argumento para repetir ousadia, e cada aliado passa a calcular seu lugar na nova hierarquia. Lawrence tenta usar o resultado para manter as tribos juntas e para exigir apoio britânico, enquanto o comando passa a vê-lo como atalho para acelerar a campanha. Ele se torna necessário demais para desaparecer sem desmontar o que colocou de pé.

Prestígio compra mas cobra

De volta ao quartel-general britânico, Lawrence decide não aceitar uma função decorativa e negocia recursos como condição, não como favor. O motivo é prático: sem dinheiro, armas e autorização, a aliança volta ao impasse e a campanha perde fôlego. A resistência vem do próprio aparelho que o enviou, interessado em resultados, mas avesso a um oficial que ganha fama e começa a impor termos. Ele consegue apoio e uma fatia de autonomia, mas paga com vigilância mais próxima, com limites de atuação e com relatórios que tentam reduzir sua iniciativa a protocolo.

Com meios em mãos, ele insiste numa guerra de movimento, atacando linhas de comunicação e tentando manter o inimigo reativo, ou melhor, tentando manter seus próprios aliados ocupados com vitórias que impeçam novas divisões, não exatamente assim porque cada sucesso também acende disputas internas e exige compensações imediatas. A fricção deixa de ser só o adversário: líderes aliados cobram reconhecimento, oficiais britânicos cobram previsibilidade, e ambos passam a usar o nome de Lawrence como atalho para pressionar decisões. O fósforo que ele apaga em segundos vira medida cruel: as suspeitas que ele acende demoram a esfriar, e a campanha avança enquanto sua margem de escolha encolhe.

A fama fecha as saídas

À medida que a campanha avança, Lawrence tenta manter acordos de pé e rotas abertas, mas enfrenta uma pressão que cresce com cada vitória: expectativas espalhadas por aliados e por oficiais que não estiveram no deserto. Ao escolher continuar, ele assume prazos que não controla e aceita que qualquer pausa vire sinal de fraqueza, o que encurta negociações e amplia suspeitas. O efeito aparece na qualidade dos acertos, cada vez mais curtos e mais caros, porque a confiança passa a ter prazo e preço.

Ele tenta corrigir mal-entendidos e redistribuir créditos sem desmontar a aliança, mas cada ajuste cria um novo ressentimento em outra ponta. A margem para improviso encolhe e as conversas viram cobrança. Para medir o tamanho dessa conta, basta um gesto simples: Lawrence assopra um fósforo e o brilho some.

Filme: Lawrence da Arábia
Diretor: David Lean
Ano: 1962
Gênero: Aventura/Biografia/Drama/Guerra
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★