Pode-se dizer muito sobre uma pessoa analisando-se quantas vezes ela se apaixonou ao longo da vida. Quando a paixão é intensa, o amor não tarda a florescer, como a rosa num campo antes ressequido dos ventos da estiagem, e se o amor é verdadeiro, não tarda a surgir uma cornucópia de sentimentos, voláteis e tóxicos, para usar uma palavra da moda. Entretanto, a crença de que o amor pode tudo ignora a razão. Relações aparentemente indestrutíveis soçobram se ganham força as aspirações opostas, os desejos incompatíveis e as personalidades antes serenas que mostram seu lado bestial, gorando o afeto. As diferenças entre uma mulher e um homem tomam boa parte de “Como Eu Era Antes de Você”, mas este ainda é um filme romântico.
Jojo Moyes adapta seu best-seller investindo na manjada fórmula do encontro de pessoas de mundos antagônicos, mas que sentem-se atraídas uma pela outra precisamente por estarem cada qual num extremo da pirâmide. O pulo do gato da diretora Thea Sharrock é valer-se dessa estrutura óbvia para fomentar um debate algo complexo, capaz de dividir o espectador. A ingenuidade de Louisa Clark só não supera o temor de ver a família sofrendo. Essa é a principal razão por que aceita a vaga de enfermeira de Will Traynor, um prodígio do mercado financeiro, afeito a esportes radicais e mulheres de fechar o comércio, que teve de abandonar tudo por causa do acidente de trânsito que o botou numa cadeira de rodas. Com delicadeza, Sharrock esmiúça o que eles podem ter em comum, levando quem assiste a uma conclusão talvez precipitada, mas não de todo errônea, e afinado, o casal de protagonistas sabe manter a história quente.
O enredo desdobra-se num carrossel de idas e vindas com um grande potencial dramático, que a diretora recheia de subtramas quase pueris, embaladas pela trilha sonora grudenta de Craig Armstrong e que a fotografia de Remi Adefarasin enfeita com tons de vermelho e amarelo. Quando tudo parece rosicler, vem a decisão de Will sobre o que fará para vencer seu tormento, conflito que fica entre o banal e o artificioso. Emilia Clarke e Sam Claflin se saem melhor que a encomenda, uma louvável constatação em casos assim. Clarke, em especial, é uma mocinha cativante, mas até seus poderes têm limite.
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