Algumas ironias cercam Thomas Edward Lawrence (1888-1935). Símbolo de uma era defunta de bravura sincera, magnânima e desinteressada, Lawrence chegou ao fim da vida como um homem preso entre dois mundos, o do passado glorioso, representado por sua carreira, e, curiosamente, o futuro, para onde sempre quis ir, e que o esmagou, na alma e na carne. O oficial loiro e de olhos azuis sentia-se mais à vontade no calor do deserto de Nafud do que na pompa dos convescotes do exército britânico, justificando à alcunha que dar-lhe-ia fama um tanto controversa, mas perene, inspiração para militares idealistas e visionários, química às vezes perigosa. “Lawrence da Arábia” traça um perfil romanceado desse herói singular, e o mito ressurge, graças a dois vultos do cinema.
Um dos diretores mais sofisticados de todos os tempos, David Lean (1908-1991) começa a história de Lawrence pelo final, como se a jornada de seu protagonista fosse um grande devaneio, na proporção exata de poesia e dor. Ele encontra a morte aos 46 anos, num patético acidente de moto, depois de desviar de duas bicicletas, e então Lean convida o público a fazer uma viagem mais extensa, síntese de aspirações profissionais e desejos ocultos que vão tomando forma amalgamando-se a areia e suor, precisamente o cenário de que seus superiores fugiam sem nenhuma sombra de virilidade. Este é, a propósito, um capítulo inescapável na biografia de Lawrence. Em que pese sua homossexualidade discreta, seis décadas atrás seria loucura abordar o tema de forma clara, mas Lean não deixou por menos. Uma sugestão aqui, um diálogo espirituoso acolá, e ninguém teria dúvidas. Esse equilíbrio, contudo, é fruto da técnica.
Lawrence aparece aristocrático por trás de um cabelo penteadíssimo e, dizem as más línguas, máscara para cílios, mas pronto para apresentar-se a Huceine ibne Ali (1854-1931), o Xarife de Meca, e juntos liderarem a Revolta Árabe (1916-1918), que visava à independência dos turcos otomanos e à fundação do Estado Árabe Unificado, congregando de Alepo, na Síria, a Áden, no Iêmen. O caudaloso roteiro de Robert Bolt (1924-1995) concentra-se em Lawrence e Ali trocando confidências, depois que o Inglês, como o turco o chamava, sobreviveu a uma longa marcha sob sol inclemente e de garganta seca, decerto uma das provas de seu temperamento férreo. O filme opera nessa lógica binária, mas sem prejuízo da análise e da irreverência, conferindo ênfase a um Lawrence de fato da Arábia, trajado a rigor. Um dos maiores atores do século 20, Peter O’Toole (1932-2013) deita e rola, puxando consigo Omar Sharif (1932-2015). Assistir e reassistir a “Lawrence da Arábia” é um pacto com a beleza de uma Hollywood mais ingênua, contudo mais relevante.
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