Discover
Pouca gente sabe, mas Meg Ryan dirigiu este filme — e ele está na Netflix Divulgação / HanWay Films

Pouca gente sabe, mas Meg Ryan dirigiu este filme — e ele está na Netflix

Em “O Que Acontece Depois”, Meg Ryan retorna à direção e à frente das câmeras ao lado de David Duchovny. Willa e Bill, que viveram um relacionamento há décadas, se reencontram por acaso em um aeroporto coberto de neve. O conflito central é a decisão prática de como ocupar horas imprevistas ao lado da única pessoa que ainda desperta irritação e curiosidade na mesma medida. O que começa como conversa forçada se transforma em um inventário das escolhas que definiram quem eles se tornaram. Willa decide falar primeiro, assumindo o controle do encontro com frases leves e observações espirituosas. Bill responde com hesitação, como quem calcula o risco de cada palavra. O obstáculo imediato é a memória desigual: o que para ela foi lembrança, para ele foi ferida, e vice-versa. O efeito é que, a cada tentativa de diálogo, o passado reabre sem aviso, e o presente passa a ser negociado com cuidado, como se ambos tivessem medo de provocar uma nova perda.

Nevasca, humor e a comédia usada como mecanismo de defesa

A nevasca cancela voos e prolonga a convivência. Willa, mais impulsiva, decide brincar com o absurdo da situação — pede bebidas, ironiza o frio, compara o terminal a uma penitência elegante. Bill tenta acompanhar, mas o humor o expõe: rir é admitir que ainda sente algo. A comédia, aqui, funciona como ação concreta; cada piada dissolve por segundos a tensão e logo a restabelece, criando um vaivém entre leveza e desconforto que move o filme. Quando o tempo começa a pesar, Willa se arrisca e pergunta o que ele teria feito diferente se soubesse que o amor deles acabaria. Bill hesita, muda de assunto, pega o celular que não tem sinal. O obstáculo agora é o orgulho: reconhecer arrependimentos seria ceder poder. A consequência é que o silêncio se torna parte ativa da cena, tão eloquente quanto as falas, e Ryan filma esses intervalos com paciência, permitindo que o não-dito defina a temperatura emocional.

Confissões, indecisão e a escolha final sem promessa

Bill, aos poucos, decide admitir que o casamento atual o esgotou. Willa escuta sem ironia e evita consolar. A escolha dela é não preencher o vazio com gentileza, deixando que ele se veja sem disfarces. O obstáculo é o tempo perdido: quanto mais sinceros se tornam, mais percebem que não há como voltar ao ponto de partida. O efeito é uma honestidade desconfortável, rara em comédias românticas, sustentada por diálogos que soam improvisados, mas revelam cálculo preciso de ritmo e pausa. Ryan filma o espaço com economia: o relógio digital anuncia novos cancelamentos, e cada hora acrescentada ao atraso aumenta o risco de recaídas emocionais. O humor reaparece em pequenas manobras — um brinde improvisado, um comentário sobre o café aguado, uma risada nervosa que interrompe a lembrança de uma traição — como amortecedor para evitar que o reencontro vire confissão definitiva. Quando o alto-falante anuncia a retomada dos voos, Willa e Bill precisam decidir se partem juntos ou voltam às rotas separadas. Não há discurso, apenas gesto: mala, casaco, a aceitação de que algo foi reaberto e já não cabe nas versões antigas. O filme termina com o som metálico da porta do avião se fechando, marcando o instante em que o acaso se transforma em escolha.

Filme: O Que Acontece Depois
Diretor: Meg Ryan
Ano: 2023
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★