Sempre sábia, a vida vai dando indícios de que é chegada a hora de mudanças profundas depois de uma jornada tão serena quanto insignificante. As cobranças e, em especial, as autocobranças começam a se multiplicar em velocidade frenética, lembrando-nos de que é necessário fazer alguma coisa, e rápido, a fim de deixar claro quem é que está no comando. Naturalmente, nos confrontam os dilemas existenciais característicos (alguns graves, outros, nem tantos), como se tudo não fosse além de uma piada metalinguística ou de um jogo, de que sai vencedor aquele que suporta permanecer mais tempo na copa de uma árvore muito alta durante a tempestade, segurando-se firme nos galhos que não param de balançar, indiferente aos trovões que ameaçam reduzir tudo a um feixe de luz abrasadora, até que a música cessa, a brincadeira perde a graça, a noite esfria como um castelo de gelo e salvador nenhum vem em nosso socorro. É nesse instante que sentimos que, se não nos tornarmos os senhores de nossas próprias decisões, pesando o que deve ou não ser feito e como, depois poderá ser irremediavelmente muito tarde. Talvez tarde demais.
Juventude, imprudência e o universo que não deve nada a ninguém
Todas essas inconsistências da juventude se juntam sob a forma de conflitos, que por seu turno quase sempre degringolam em atitudes precipitadas, irrefletidas, que terminam por custar caro, muito caro. Contrariamente ao que achamos quando somos imprudentemente jovens, e, portanto, marcados por uma ingenuidade perigosa, o universo não nos deve coisa alguma, não tem a menor ideia sobre quem somos e não faz nenhuma questão de tê-la. É exatamente o oposto: somos nós, essas criaturinhas ridículas e nefastas e pretensiosas, quem devemos procurar cada vez mais conhecê-lo, malgrado uma vida dure menos de um segundo para tanto, e, mais uma vez, cheguemos ao fim da estrada, perplexos com nossa ignorância, nus, descalços e vulneráveis, como no princípio, à espera dos bárbaros com sua solução mágica para os problemas que cultivamos com toda a diligência. Trocando em miúdos — e redobrando a carga dramática —, é disso que Alan Parker vem tratar em “O Expresso da Meia-noite” (1978), trabalho com que quebrou uns bons paradigmas no que respeita a contar uma história sem muito rebuscamento estético, apostando alto na força das tantas mensagens veladas, incrementadas com a ajuda providencial de elementos técnicos nada menos que sublimes.
O roteiro enviesado e o golpe de “grana fácil” que dá errado
Oliver Stone, William Hoffer e Billy Hayes elaboram um roteiro assumidamente enviesado, e nem poderia ser de outro modo. Em 1970, o americano Hayes, numa viagem à Turquia com a namorada Susan, encontra um jeitinho de faturar uma grana fácil: embarcar de volta para os Estados Unidos trazendo atados ao corpo algumas dezenas de tabletes de haxixe. Para quem já assistiu ao filme mais vezes que o número de gotas de suor que Brad Davis (1949-1991) derrama nessa sequência inicial, parece absurdo que aquilo tivesse qualquer chance de dar certo, o que de fato acontece, mas foi por pouco. Hayes enfrenta a primeira revista galhardamente, toma o metrô que conduz os passageiros ao aeroporto de Ancara e está, enfim, na pista de decolagem, depois de transpirar outro tanto e de ter dado um sem-número de patadas na mocinha, que sabe que há alguma coisa de muito suspeito no comportamento do namorado, mas não ousa dizer o quê. O desconforto de Hayes recomeça quando nota que antes de subirem à aeronave, os viajantes têm, além dos pertences, o próprio corpo devassado. É o fim da linha.
Julgamento como farsa e a pena que explode no último minuto
Apesar de culpado, causa espécie o artificialismo do julgamento, um verdadeiro jogo de cartas marcadas, do advogado Yesil, balofo e picareta encarnado por Franco Diogene (1947-2005), o respiro cômico possível, ao juiz de Gigi Ballista (1918-1980), imparcial, mas visivelmente tomado pelo pandemônio em que o caso se transforma. As cenas em que o intérprete vivido por Mihalis Giannatos (1941-2013) se perde pelo desejo inconfessável de ver Hayes apodrecer na cadeia e não é mais capaz de traduzir nada adquirem um tom humorístico involuntário, como se o diretor provocasse o espectador e o obrigasse a rir, mas de nervoso. O personagem de Davis é sentenciado a uma pena de quase quatro anos, mas num lance desabridamente farsesco, mas verossímil, faltando 54 dias para que esse prazo expirasse, a Suprema Corte turca decreta que seu crime deve ser submetido à nova apreciação da Justiça, que o fustiga com mais trinta anos. É a deixa para que Parker comece a trabalhar o segundo ato e a virada correspondente, em que Hayes decide acessar o tal expresso da meia-noite do título, gíria usada no cárcere para definir situações como a dele.
Um clássico polêmico e as marcas de bastidor
O filme já nasceu clássico e polêmico. A atuação de Brad Davis, precisa, rendeu-lhe o Globo de Ouro de Melhor Ator, e parecia que o garoto dourado de Tallahassee empreenderia uma carreira brilhante em Hollywood. Lastimavelmente, contudo, treze anos depois, o ator morreria de aids, aos 41 anos, sem nunca ter conseguido outro papel de igual destaque. Outras notas de bastidor, menos dramáticas, mas bastante reveladoras, mostram um Oliver Stone muito diferente do esquerdista convicto de hoje, atacando sem nenhum pejo as leis de uma nação periférica — certamente por também ter passado por apuro semelhante, no México, em 1967.
Trilha, fotografia e a sensação de um éden decaído
“O Expresso da Meia-noite” atravessa décadas incólume, valendo-se do talento de Giorgio Moroder, compositor da trilha sonora, melancolicamente poética (e não sai da cabeça nem em um milhão de anos), e da bela fotografia de Michael Seresin num sépia triste e mórbido. Como as noites num éden decaído.
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