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Entre a nostalgia e a rebeldia: Richard Linklater assina comédia que marcou uma geração e agora chega à Netflix Divulgação / Paramount Pictures

Entre a nostalgia e a rebeldia: Richard Linklater assina comédia que marcou uma geração e agora chega à Netflix

“Escola do Rock” começa a partir de um farsa deliberada, quase infantil, e não tenta esconder isso. Dewey Finn, vivido por Jack Black, é um guitarrista fracassado que se recusa a aceitar qualquer forma de amadurecimento. Expulso da própria banda, incapaz de pagar o aluguel e emocionalmente estacionado na adolescência, ele assume por acaso a identidade do amigo Ned Schneebly, interpretado por Mike White, e aceita uma vaga como professor substituto em um colégio particular rígido e elitista.

O filme deixa claro desde cedo que a premissa não busca verossimilhança social, mas coerência interna. A trapaça de Dewey não é um truque engenhoso, e sim uma extensão do seu caráter: improvisado, irresponsável e movido por impulsos imediatos. A narrativa avança sem disfarçar esse aspecto, apostando no contraste direto entre a anarquia sonora do rock e a disciplina quase claustrofóbica do ambiente escolar. Esse choque inicial não serve apenas como motor cômico, mas como base para discutir, ainda que de maneira leve, a ideia de autoridade e pertencimento.

Rock como método, não como metáfora

Quando Dewey decide transformar a sala de aula em um laboratório musical clandestino, o filme ganha clareza temática. Ele não está interessado em ensinar matemática ou literatura; seu único repertório intelectual gira em torno da história do rock, dos riffs clássicos e da mitologia construída em torno de figuras como Jimi Hendrix ou Pete Townshend. A transformação dos alunos em uma banda obedece a uma lógica funcional: cada criança recebe uma tarefa compatível com sua habilidade, do guitarrista ao responsável pela produção.

Aqui, Richard Linklater conduz a história com pragmatismo narrativo. O rock deixa de ser símbolo abstrato de rebeldia e passa a funcionar como método de organização coletiva. O grupo se estrutura, ensaia, erra e melhora. O crescimento das crianças é visível não porque elas “descobrem quem são”, mas porque passam a operar como um sistema. Essa escolha afasta o filme de discursos edificantes fáceis e aproxima a experiência de algo mais concreto: aprender fazendo, mesmo que o conteúdo seja questionável.

Dewey Finn e a rebeldia domesticada

Embora se apresente como um inimigo declarado “do sistema”, Dewey nunca ameaça nada de fato. Jack Black constrói o personagem com energia física constante, voz exagerada e timing cômico preciso, mas o texto nunca permite que ele ultrapasse certos limites. Sua rebeldia é performática, quase infantil, sustentada por slogans e poses herdadas de um rock já institucionalizado. O filme parece consciente dessa contradição.

Dewey fala em liberdade enquanto depende do emprego falso, critica regras enquanto cria as próprias e se vê, no fundo, confortável em liderar. Essa ambiguidade impede que o personagem se torne um herói clássico ou um simples palhaço. Ele é funcional enquanto catalisador, não como modelo. O roteiro de Mike White entende isso e evita qualquer tentativa de redenção moral profunda. Dewey melhora apenas o suficiente para não colapsar, e isso é coerente com tudo o que veio antes.

Adultos, crianças e controle social

A presença dos adultos ao redor reforça o tom contido do filme. Joan Cusack, como a diretora Rosalie Mullins, representa a autoridade formal que tenta manter a ordem sem compreender o que acontece fora dos manuais. Sua rigidez inicial não é vilanizada; ela surge como parte natural de uma engrenagem social voltada ao desempenho e à reputação. Ned Schneebly, por sua vez, encarna o oposto de Dewey: alguém que desistiu de confrontos e se adaptou a uma vida previsível, pressionado pela namorada Patty, vivida por Sarah Silverman.

As crianças transitam entre esses polos, descobrindo prazer e autonomia dentro de um espaço controlado. O filme nunca sugere uma revolução educacional, apenas uma suspensão temporária das regras. No encerramento, tudo retorna ao eixo, mas algo permanece deslocado. Não é uma vitória do rock, nem da escola, e sim a constatação de que até estruturas rígidas precisam, ocasionalmente, de ruído para não se tornarem estéreis.

Filme: Escola do Rock
Diretor: Richard Linklater
Ano: 2003
Gênero: Comédia
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.