O afeto virou mercadoria há tanto tempo que já se discute amor como se fosse um investimento de risco. “Como Eu Era Antes de Você” entra nesse terreno minado sem fingir neutralidade. Adaptado do romance de Jojo Moyes, o filme escolhe falar de cuidado, desejo e escolha pessoal sem transformar esses conceitos em slogans edificantes. Não é uma narrativa confortável, tampouco moralmente conciliadora. E talvez por isso ainda provoque reações tão extremadas.
Louisa Clark, vivida por Emilia Clarke, não corresponde ao arquétipo da jovem inspiradora moldada para ensinar lições. Ela é desorganizada, verborrágica, financeiramente encurralada e emocionalmente presa à família que depende de seu salário. O emprego como cuidadora surge menos como vocação e mais como urgência material. Clarke sustenta essa ambiguidade com inteligência: o carisma de Lou não nasce de pureza ou altruísmo, mas da recusa em se tornar cínica. Sua alegria é prática, quase combativa. Ela insiste em existir com cores num mundo que prefere tons neutros, e essa insistência tem custo.
Will Traynor e a soberania sobre o próprio limite
Sam Claflin constrói Will Traynor longe da caricatura do “rico amargurado”. Antes do acidente de moto que o deixa tetraplégico, ele vivia sob a ilusão de controle absoluto: corpo, dinheiro, futuro. Depois, resta a lucidez cruel de quem entende exatamente o que perdeu. O roteiro não suaviza sua decisão sobre o próprio destino nem a transforma em gesto heroico. Will não rejeita a vida por desprezá-la, mas por conhecê-la em excesso. A recusa em negociar sua autonomia é o eixo mais incômodo do filme — e também o mais honesto.
Romance sem anestesia emocional
A relação entre Lou e Will cresce por atrito, não por idealização. Ela invade seu espaço com comentários fora de hora; ele desmonta suas tentativas de otimismo com ironia cirúrgica. O afeto nasce desse embate contínuo, no qual nenhum dos dois assume função terapêutica. Lou não “salva” Will, tampouco ele a “eleva”. O que existe é troca real, com perdas distribuídas. Quando o sentimento se afirma, já não há promessa de futuro compartilhado, apenas intensidade presente — e isso altera completamente o peso da história.
Clichês, concessões e o que permanece
O filme tropeça quando tenta guiar demais o espectador: músicas populares sublinhando emoções, personagens secundários desenhados para cumprir funções narrativas óbvias. Esses atalhos enfraquecem a confiança no público. Ainda assim, o núcleo dramático resiste. A crítica que acusa o longa de desvalorizar vidas com deficiência ignora o ponto central: a vida de Will é retratada como cheia de vínculos, prazer e pensamento. O conflito não é social, é existencial. Ao terminar, não sobra conforto nem resposta pronta. Sobra a pergunta mais incômoda de todas: até onde vai o nosso direito de decidir pelo outro quando o outro decide por si.
★★★★★★★★★★



