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Com Robert De Niro, Martin Scorsese assina um dos retratos biográficos mais implacáveis do cinema, na Netflix

Com Robert De Niro, Martin Scorsese assina um dos retratos biográficos mais implacáveis do cinema, na Netflix

Desde a primeira imagem, “Touro Indomável” estabelece um pacto rigoroso com o espectador: nada ali será confortável, redentor ou ornamental. Martin Scorsese constrói o percurso de Jake LaMotta como um estudo de caráter em permanente atrito com o mundo, e não como a narrativa previsível de ascensão e queda que o tema do boxe costuma sugerir. O filme já revela seu desfecho logo de saída, ao apresentar LaMotta envelhecido, inchado, reduzido a números de cabaré e piadas gastas, antes de recuar no tempo e expor o jovem lutador no auge físico. Essa escolha narrativa elimina qualquer suspense convencional e desloca o interesse para outro lugar: não o que vai acontecer, mas como um homem consegue destruir, com método e constância, tudo o que toca.

Jake LaMotta, vivido por Robert De Niro, não separa o ringue da vida privada. O mesmo impulso que o mantém de pé após sucessivos golpes é o que estrutura sua relação com o irmão Joey, interpretado por Joe Pesci, e com a esposa Vickie, papel de Cathy Moriarty. A agressividade não surge como explosão ocasional, mas como idioma dominante. No boxe, essa postura produz vitórias e reconhecimento; fora dele, gera paranoia, ciúme e um isolamento progressivo. LaMotta suspeita de traições sem provas, interpreta gestos banais como afrontas e responde sempre com intimidação ou violência física. O filme não oferece explicações psicológicas fáceis nem tenta justificar esse comportamento por traumas ou determinismos sociais. A brutalidade é apresentada como escolha reiterada, quase um hábito, e justamente por isso mais perturbadora.

Corpo, tempo e degradação

A passagem dos anos em “Touro Indomável” não traz amadurecimento, apenas desgaste. O corpo de LaMotta, inicialmente instrumento de domínio, torna-se um peso. De Niro enfatiza essa transformação ao alterar radicalmente sua aparência, mas o impacto maior está na maneira como Scorsese filma a perda de controle. O campeão que suportava golpes para provar resistência passa a apanhar da própria incapacidade de lidar com frustrações banais. A relação com Joey, antes sustentada por lealdade e pragmatismo, se deteriora até o rompimento definitivo, numa das sequências mais tensas do filme. O boxe, que parecia organizar o caos interno de Jake, deixa de cumprir essa função quando o declínio físico se impõe. Sem o ringue, sobra apenas um homem sem disciplina, incapaz de negociar afetos ou limites.

Forma e sentido em confronto direto

A opção pelo preto e branco não atende a um capricho estilístico, mas reforça a aridez moral da narrativa. As lutas são encenadas como eventos quase abstratos, pontuadas por sons secos e montagem agressiva, enquanto a vida doméstica se revela sufocante em espaços fechados. Scorsese não romantiza a autodestruição de LaMotta nem a transforma em espetáculo catártico. O último ato, com Jake repetindo fal falas diante do espelho, não sugere redenção plena, apenas uma consciência tardia e incompleta. “Touro Indomável” permanece relevante justamente por se recusar a consolar. Ao acompanhar Jake LaMotta até o limite de sua própria ruína, o filme sustenta uma pergunta incômoda: o que resta quando a força que impulsiona o sucesso é a mesma que inviabiliza qualquer forma de convivência?

Filme: Touro Indomável
Diretor: Martin Scorsese
Ano: 1980
Gênero: Biografia/Drama/Esporte
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.