Charlie Babbitt entra na história como um adulto que nunca amadureceu por inteiro. Interpretado por Tom Cruise com uma energia quase agressiva, ele é movido por ressentimento, cifras e uma ferida antiga: a ausência emocional do pai. A morte do patriarca não inaugura um luto, mas um inventário. Quando Charlie descobre que a maior parte da herança foi destinada a um irmão que ele desconhecia, o choque não é moral, é financeiro. Raymond Babbitt, vivido por Dustin Hoffman, aparece como um obstáculo burocrático antes de ser reconhecido como pessoa. Autista, institucionalizado, preso a rotinas rígidas, Raymond não entende dinheiro, mas compreende regras com uma lógica implacável. O encontro entre os dois não nasce do afeto, nasce da ganância. E é justamente essa origem pouco nobre que sustenta a força do enredo.
Raymond Babbitt e o limite entre genialidade e solidão
Dustin Hoffman constrói Raymond com uma precisão desconcertante, sem pedir empatia imediata. O olhar fixo, a fala repetitiva, o apego obsessivo a números e horários não servem como truque dramático, mas como linguagem. Raymond não é um símbolo, é um homem com restrições severas e talentos específicos, como a memória extraordinária. O roteiro acerta ao não romantizar essa condição. A genialidade matemática não compensa a solidão, nem resolve a incapacidade de estabelecer vínculos convencionais. Cada reação de Raymond evidencia o quanto o mundo foi desenhado sem levá-lo em conta. A atuação de Hoffman evita caricatura porque se ancora no desconforto: o espectador não é convidado a admirar Raymond, mas a respeitar seus limites.
Charlie Babbitt e a lenta desmontagem do ego
Se Raymond permanece relativamente estável, Charlie se desfaz aos poucos. Tom Cruise conduz essa transformação sem arroubos sentimentais. O personagem segue sendo vaidoso, impulsivo e verborrágico durante quase todo o percurso. A mudança acontece em detalhes: no tom de voz que abaixa, no tempo de espera que ele aprende a suportar, no olhar que deixa de calcular vantagem. A viagem improvisada que começa como sequestro vira convivência forçada, e a convivência vira aprendizado. Charlie não se torna virtuoso; ele apenas entende que afeto não se negocia como um carro de luxo. Essa contenção impede que a história escorregue para a redenção fácil.
Entre o vínculo possível e o que nunca será
Barry Levinson conduz a narrativa sem espetacularizar emoções. A relação entre os irmãos se constrói em gestos mínimos, como a famosa sequência no motel, quando Charlie finalmente compreende quem Raymond foi em sua infância. Valeria Golino, como Susanna, funciona como contraponto afetivo, observando de fora um laço que não comporta explicações simples. O desfecho não oferece conforto pleno: Raymond retorna à instituição, Charlie fica com menos dinheiro e mais consciência. “Rain Man” permanece atual porque recusa soluções mágicas. Ele entende que nem todo vínculo se resolve, e que amadurecer, às vezes, significa aceitar aquilo que não pode ser consertado.
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