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Com Cillian Murphy, drama histórico no Prime Video revela passado doloroso e pouco conhecido da Irlanda Divulgação / Big Things Films

Com Cillian Murphy, drama histórico no Prime Video revela passado doloroso e pouco conhecido da Irlanda

O chamariz deste filme não está na denúncia direta nem na exposição gráfica da violência. Ele se constrói a partir de uma recusa deliberada ao excesso. O enredo avança com contenção, exigindo atenção contínua do espectador, que precisa interpretar gestos, silêncios e repetições. Nada é explicado de forma didática. A narrativa confia na inteligência de quem assiste e na capacidade de reconhecer, pouco a pouco, o que está em jogo.

Os flashbacks cumprem um papel estrutural decisivo. É por meio deles que se compreende a ligação de Bill Murphy com o convento e, sobretudo, a natureza do conflito que o atravessa. Sua mãe esteve à beira do mesmo destino reservado às jovens internadas ali. A intervenção de Mrs. Wilson, um gesto isolado de humanidade em meio à regra, alterou esse percurso. Bill cresce sabendo que sua própria existência dependeu de uma exceção, não de justiça. Esse dado biográfico não funciona como sentimentalismo retrospectivo, mas como chave ética: ele reconhece, com clareza incômoda, o que teria acontecido se ninguém tivesse interferido.

Ao perceber o que se passa no convento, Bill não reage como um herói clássico. Sua resposta é lenta, marcada pela hesitação e pelo cálculo das consequências. Ele sabe que questionar a Igreja não é apenas um ato individual, mas uma ameaça à estabilidade da própria família. Casado, pai de cinco filhas, inserido numa comunidade que depende do silêncio para funcionar, Bill carrega o peso de um dilema concreto: agir significa romper com a ordem social; calar significa compactuar com ela.

O cotidiano do personagem reforça essa tensão. Ele é um trabalhador comum, dono de um pequeno negócio de carvão, alguém que conhece as limitações materiais do lugar onde vive. Em comparação com outros moradores, sua família até desfruta de certo conforto. O Natal se aproxima, há expectativas simples, quase modestas. Esse contexto não é decorativo: ele evidencia o quanto a violência institucional se sustenta justamente na normalidade, na repetição de rotinas que tornam o intolerável administrável.

A descoberta da jovem trancada no depósito de carvão funciona menos como choque narrativo e mais como ponto de inflexão moral. A partir dali, o filme passa a tratar não apenas da brutalidade exercida contra mulheres consideradas “desviantes”, mas da rede de cumplicidade que permite sua continuidade. O convento não é um espaço isolado; ele se mantém porque a comunidade aceita, porque o medo organiza comportamentos, porque a promessa de uma “vida tranquila” depende da omissão coletiva.

A memória de Bill retorna com insistência: a infância marcada por perda, mas também por um gesto simples de cuidado. Não há idealização desse passado. Ele surge como lembrança funcional, quase filosófica, lembrando que escolhas individuais, mesmo pequenas, produzem consequências duradouras. É esse raciocínio que o impede de aceitar os acordos tácitos que até sua esposa considera prudentes.

O filme opera com economia de diálogos e aposta num ambiente opressivo que dispensa explicações longas. A ameaça não se manifesta por gritos ou punições explícitas, mas pela certeza de que qualquer desvio será punido. O resultado é uma sensação constante de pressão, mais eficaz do que qualquer recurso de choque. Trata-se de um horror cotidiano, organizado, sustentado por autoridade moral e religiosa.

A interpretação de Cillian Murphy acompanha essa lógica. Sua atuação é contida, quase austera. O personagem pensa antes de agir, observa antes de reagir. Essa postura não enfraquece o impacto; ao contrário, obriga o espectador a compartilhar da mesma inquietação, da mesma espera desconfortável por uma decisão que custa a vir.

O aspecto mais perturbador talvez não seja o que o filme revela, mas o período em que se passa. A estrutura retratada poderia ser associada ao século 19 sem grande estranhamento. No entanto, estamos nos anos 1980. Esse deslocamento temporal expõe o atraso moral de instituições que se mantiveram intocadas por décadas, protegidas por respeito, medo e conveniência social.

Não é uma experiência confortável. Tampouco pretende ser. O filme se encerra deixando uma pergunta que não se dissipa facilmente: até que ponto a normalidade cotidiana depende da aceitação silenciosa da injustiça? A resposta não é oferecida. Ela recai, como responsabilidade, sobre quem assiste.

Filme: Pequenas Coisas Como Estas
Diretor: Tim Mielants
Ano: 2024
Gênero: Biografia/Crime/Drama/História
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.