Há algo de quase hipnótico no convite inicial desse thriller marítimo: luxo flutuante, taças sempre cheias, rostos conhecidos circulando por corredores estreitos demais para segredos. Durante meia hora, talvez um pouco mais, a narrativa se sustenta nesse jogo de sedução. O espectador entra acreditando, não por ingenuidade, mas porque o filme se apresenta com a segurança de quem sabe exatamente que tipo de pacto está propondo. A promessa é clara: tensão elegante, paranoia bem dosada, um mistério que se infiltra aos poucos sob a superfície polida.
O problema começa quando a protagonista, uma jornalista experiente, passa a agir como se tivesse esquecido tudo o que a profissão e a vida deveriam ter lhe ensinado. Perder o controle pode ser humano; transformar isso em motor constante da ação soa menos como fragilidade bem escrita e mais como conveniência narrativa. Há uma diferença sutil, porém decisiva, entre nervosismo e inconssequência. O roteiro parece não distingui-las. E quando o espectador percebe que consegue antecipar com facilidade demais os movimentos da história, instala-se um desconforto difícil de ignorar: não aquele produtivo, que nasce da ambiguidade, mas o enfado de quem já entendeu o truque antes do terceiro ato.
A reta final, então, abandona qualquer pudor. O que vinha sendo construído como intriga relativamente sóbria descamba para soluções apressadas, quase caricatas, como se alguém tivesse percebido tarde demais que era preciso amarrar pontas, e rápido. Curiosamente, a sinopse do romance original sugere um caminho muito mais coerente. A adaptação, ao tentar “incrementar” o material de origem, parece ter perdido justamente aquilo que dava sustentação ao enredo. Em vez de densidade, excesso; em vez de tensão, ruído.
Ainda assim, seria desonesto ignorar o que funciona. Keira Knightley ocupa o centro da narrativa com uma presença que dispensa esforço visível. Ela entra em cena e o filme ganha gravidade. Há algo de quase antigo nisso, uma qualidade rara em tempos de performances infladas: acreditamos nela antes mesmo de concordar com suas escolhas. É essa confiança tácita que mantém o espectador a bordo quando o roteiro começa a patinar. Sem Knightley, a produção provavelmente escorregaria para o anonimato confortável dos thrillers descartáveis. Com ela, mantém uma dignidade mínima, algo em torno de um seis sólido, talvez um sete generoso.
Mas há um pecado capital que o filme comete e do qual não se recupera totalmente: a quebra brutal da verossimilhança. Em narrativas desse tipo, o acordo com o público é frágil. Basta uma cena implausível para implodir todo o edifício. O momento em que a protagonista salta do barco é esse ponto de ruptura. A distância absurda da costa, a água gelada tratada como detalhe irrelevante, a travessia improvável em roupas pesadas, seguida por uma sequência quase mágica de sobrevivência logística, fósforos encontrados no escuro, lareira pronta, roupas perfeitamente ajustadas, tudo isso provoca um curto-circuito mental difícil de contornar. Não é uma questão de preciosismo; é a lógica interna do filme que se dissolve ali.
A partir desse instante, o olhar muda. Aquilo que antes parecia tensão cuidadosamente construída passa a soar como encenação descuidada. A importância do real, tão cara ao gênero, perde valor. No meu caso, a experiência foi tão perturbadora que precisei pausar a exibição. O streaming, ironicamente, salvou o filme de um abandono precoce. No cinema, eu teria perdido minutos tentando recalibrar a suspensão de descrença.
Há ainda um último incômodo, menos narrativo, porém persistente: a escuridão excessiva. A opção por imagens quase opacas virou vício contemporâneo, mas nem todo espectador assiste em uma sala ideal, sem janelas ou reflexos. Um ajuste mínimo de luminosidade não trairia a atmosfera; ao contrário, permitiria que ela fosse percebida. Às vezes, parece que certos diretores filmam apenas para outros diretores, ou para telas que existem apenas na imaginação deles.
Resta um filme que entretém, sim, mas que também frustra. Não por ousar demais, e sim por confiar pouco na própria inteligência, e na do público. O que poderia ter sido um thriller elegante acaba lembrado como uma experiência irregular, sustentada mais pelo carisma de sua protagonista do que pela solidez de suas ideias. E isso, convenhamos, é sempre um desperdício elegante demais para passar despercebido.
★★★★★★★★★★



