A internet é um universo fantástico e assustador. Capaz de sepultar reputações, expor intimidades para milhões de desconhecidos e tornar alguém totalmente sem graça em famoso em apenas segundos. Mas a internet também conecta, une, informa, transforma vidas de maneira positiva. Uma das coisas mais incríveis que a internet fez foi colocar a obra “O Grito”, de Edvard Munch, sob os holofotes ao transformá-la em meme. Sim, acredite ou não, essa pintura (ou essas pinturas, já que existem mais versões da mesma) repousava silenciosamente em museus, onde o tempo anda de meias e a angústia é observada a uma distância segura.
Suspenso como uma ferida histórica belamente enquadrada, “O Grito” faz parte de um ciclo intitulado “O Friso da Vida”, dedicado à ansiedade, ao medo e ao colapso emocional dos indivíduos. Munch chegou a escrever em diários sobre sentir “um grito infinito atravessando a natureza”. Parecia que ele previa que o mundo chegaria, quase um século depois, a uma realidade de crises climáticas, hiperconexão, inteligência artificial, ansiedade coletiva, burnouts e sobrecarga generalizada pelo capitalismo.
O meme popularizou a obra nos anos 2000. Alguns dizem que ele também a banalizou. Mas será? O grito se tornou coletivo, e não individual. Todos passamos a nos relacionar com aquela figura angustiada, aterrorizada, exaurida. Virou um comentário social sobre boletos, guerras, colapsos ambientais, excessos de notícias sobre tragédias, ansiedade, pressão em um mundo que gira em torno de dinheiro, poder e status. Mesmo que com um certo tom de sarcasmo e humor, “O Grito” virou algo que todos nós sentimos. O personagem de Munch não tem gênero, não tem idade e nem contexto específico.
Quando o pintor a concebeu, era uma espécie de confissão. Era uma tarde de 1892, em uma estrada próxima ao fiorde de Oslo, quando ele sentiu uma ruptura física com o mundo. O céu se tornou vermelho como sangue, o horizonte começou a distorcer e a natureza inteira parecia gritar. Ele teve um episódio de crise de ansiedade e tentou descrevê-la com imagens. Dar forma ao indizível. Utilizando têmpera e pastel sobre papelão, ele pintou um rosto sem ossos e uma realidade que derrete. No fundo, as pessoas transitam como se nada estivesse acontecendo, porque a angústia é individual. Quatro versões do mesmo quadro foram produzidas.
Vítima de crises nervosas ao longo da vida, sua obra foi vista mais como um sintoma pessoal, à época, do que como um diagnóstico do mundo moderno. O meme, ao contrário do que muitos pensam, não diminuiu o valor cultural da obra. Pelo contrário, tornou-se uma linguagem universal. O século 21 confirmou que o grito não é individual, mas um ensaio geral de uma sociedade à beira do colapso em absolutamente todas as esferas. Munch não pintou um momento histórico, mas um estado permanente da condição humana.



