Numa tarde comum em Paris, um escritor americano em turnê de divulgação encontra a mulher com quem viveu um breve romance de viagem, anos antes, e aceita acompanhá-la por algumas horas pela cidade, mesmo sabendo que precisa pegar um avião até o anoitecer. Em “Antes do Pôr-do-Sol”, Ethan Hawke, Julie Delpy e o diretor Richard Linklater retomam aqueles personagens e fazem do reencontro o conflito central: decidir o que fazer com um sentimento antigo diante de vidas refeitas e responsabilidades assumidas.
Na livraria onde Jesse autografa livros, a escolha de esticar a conversa para além das perguntas formais já altera o rumo do dia. Ele se aproxima de Celine com curiosidade e uma esperança mal disfarçada de que a memória compartilhada não pertença apenas ao passado. Ela aceita caminhar com ele não só por cortesia, mas porque também precisa verificar que lugar aquela lembrança ocupa na mulher que se tornou. O limite é concreto: poucas horas, um voo marcado, compromissos à espera em outro continente.
A caminhada se torna a forma principal da narrativa e a rota traduz o avanço da intimidade. Cada mudança de trajeto nasce da decisão de prolongar o encontro. Eles poderiam ficar em um café e encerrar o assunto com comentários protocolares; preferem seguir pelas ruas, lado a lado. A cidade oferece caminhos sedutores, mas também impõe obstáculos concretos: trânsito, relógios, lojas que lembram a vida cotidiana à espera. A cada desvio, aumenta a distância em relação ao aeroporto e diminui a distância entre os dois.
O confronto verbal começa revestido de polidez. Jesse fala do livro que escreveu e escolhe apresentá-lo como ficção, embora saiba que está expondo a tarde em Viena a qualquer leitor. Celine responde com humor defensivo, determinada a não parecer sentimental. Ambos tentam controlar a versão da história que será aceita ali, no presente, e é desse esforço que nasce a tensão. Nenhum quer ser o primeiro a admitir que aquela tarde interrompida ainda pesa sobre decisões importantes tomadas depois.
Com o avanço do percurso, as concessões corteses cedem espaço para perguntas diretas. Ele decide contar quanto sentiu falta dela, como procurou sinais em lugares onde poderiam ter se reencontrado; ela hesita, muda de assunto, volta, até admitir frustrações parecidas. A cada nova informação, os dois precisam recalcular o que consideravam fato estabelecido. Quando falam sobre a noite em que deveriam ter se encontrado novamente, um obstáculo quase banal, ligado a compromissos familiares e desencontros práticos, aparece como a peça que desarranjou anos de expectativa silenciosa.
O tempo quase real em que tudo se desenrola funciona como outra força em cena. Ao concentrar a história em poucas horas, o filme transforma o relógio em pressão constante, mesmo quando ninguém menciona o horário. Jesse sabe quanto tempo tem até o aeroporto e, a cada decisão de seguir com Celine, reduz sua margem de segurança. Ela percebe isso e às vezes insiste para que ele vá, como se quisesse medir até onde ele arrisca a vida arrumada que descreve.
Em determinado trecho, o ritmo das frases e dos passos se acelera. Eles desviam de turistas. Cruzam ruas apressados. Falam quase sem pausa. Pequenos incidentes de percurso obrigam o casal a se aproximar fisicamente e a ajustar o passo. Cada movimento exige decidir se mantêm a leveza do reencontro ou assumem que há algo mais em disputa. Cada gesto mínimo altera a temperatura da conversa e torna difícil acreditar que tudo possa terminar em despedida cortês.
Quando a rota muda do espaço público para ambientes mais fechados, a discussão também se estreita. No interior do carro, sem a distração da paisagem, Jesse precisa lidar com perguntas mais incisivas sobre sua vida familiar. Ele decide responder com meia verdade, convencido de que protege pessoas ausentes, mas essa escolha cria um novo obstáculo entre ele e Celine, que percebe os vazios e insiste em ocupá-los. A proximidade física reforça a sensação de falta de ar e de risco concreto.
O ponto de maior risco aparece quando, já perto do fim do trajeto, os dois deixam de falar apenas do passado e encaram o que ainda podem ou não fazer um pelo outro. Já não se trata de reconstituir o que deu errado nove anos antes, e sim de decidir se alguma coisa será alterada naquele dia. Jesse, atrasado para qualquer retorno tranquilo à rotina, avalia o custo de um gesto de ruptura, enquanto Celine decide se incentiva ou freia esse impulso.
No apartamento de Celine, já longe da rua e do olhar de desconhecidos, o cerco temporal atinge intensidade máxima. Não há mais barulhos de trânsito ou turistas para distrair. Restam a voz dela, o violão, o silêncio entre frases que começam como brincadeira e terminam como confissão. Ali, as decisões ganham materialidade simples: sentar, levantar, preparar café, tirar os sapatos. Cada escolha empurra o limite do que seria aceitável naquele final de tarde, enquanto o avião permanece como possibilidade distante, porém real.
O filme encerra essa jornada sem oferecer respostas verbais claras, preferindo uma imagem que fixa a sensação de suspensão. Jesse está onde não deveria estar naquele horário, Celine aceita prolongar a cena com um gesto leve, e o mundo exterior permanece do lado de fora da janela. O que importa não é saber com certeza que decisão virá depois, e sim perceber como algumas conversas mudam o mapa interno de quem as viveu, mesmo que o trajeto físico tenha durado apenas algumas ruas.
★★★★★★★★★★


