Rotinas longas, trânsito pesado e sensação de cansaço fazem do fim de semana um espaço disputado. Em muitas casas, a sala vira refúgio onde se pode acompanhar novidades sem filas, deslocamentos ou gastos extras. Nesse cenário, a chegada de filmes inéditos em plataformas populares reforça o hábito de ver cinema em casa e amplia o acesso a lançamentos para quem sai menos à noite.
Ao reunir estreias em poucos dias, a plataforma oferece retrato de diferentes países. Aparecem histórias íntimas e tramas amplas sobre desigualdade social, conflitos familiares, crença religiosa, juventude escolar, luto, violência e delitos motivados por necessidade econômica. O interesse não está apenas na novidade, mas na forma como esses filmes dialogam com preocupações de quem sente o peso do custo de vida e administra tensões afetivas.
Para quem alterna trabalho, estudo, cuidados domésticos e presença nas redes, separar algumas horas para ver filmes recentes funciona como suspensão breve do ritmo. Sem promessas de fuga total, essas narrativas permitem observar tensões conhecidas sob outros ângulos e reconhecer situações próximas, ora com humor, ora com desconforto. O sofá deixa de ser apenas lugar de descanso e vira ponto silencioso de observação da vida social, visto a partir de casa.
Divulgação / Cinema InutileUma mãe solteira retorna a Taipei com as duas filhas após anos no interior, buscando recomeço ao abrir uma barraca em um movimentado mercado noturno. Entre vapores de comida, luzes de néon e o barulho constante da cidade, cada mulher enfrenta uma batalha própria: a filha mais velha tenta conciliar responsabilidade, estudos e desejo de independência, enquanto a caçula sofre com o estigma de escrever com a mão esquerda, vista pelo avô como “mão errada”, ligada a superstições e tradições rígidas. As tensões explodem quando antigas feridas familiares, machismo disfarçado de cuidado e expectativas de obediência colidem com sonhos modernos de liberdade. Pequenos gestos cotidianos — um bilhete rasgado, uma refeição compartilhada, um olhar de reprovação — revelam o peso invisível de gerações. Ao acompanhar essa rotina, a narrativa mostra como a conquista de um gesto simples, como poder usar a própria mão, pode simbolizar uma revolução íntima. E resistem.
Rob Baker Ashton / NetflixNa véspera do Natal, uma vendedora sobrecarregada, cansada de acumular jornadas mal pagas, descobre que o mesmo empresário que explora sua equipe também enganou um faz-tudo contratado para instalar o sistema de segurança da loja de departamentos onde trabalha. Juntos, os dois transformam a indignação em plano: organizar um assalto milimetricamente calculado ao cofre do estabelecimento, justamente na noite em que a cidade inteira parece caber entre vitrines iluminadas e músicas festivas. Enquanto estudam pontos cegos das câmeras, rotinas dos colegas e manias do patrão, a parceria improvisada ganha contornos românticos, criando brechas perigosas em um esquema que exige sangue-frio absoluto. Reviravoltas familiares, aliados inesperados e contratempos cômicos colocam o golpe à beira do fracasso repetidas vezes. Entre a tentação do dinheiro fácil e o desejo de justiça, os protagonistas precisam decidir se aquela noite será apenas crime ou também a chance de um recomeço afetivo e profissional. Enfim escolhem.
Divulgação / Black BearNo início do século 20, um trabalhador das ferrovias cruza o oeste americano derrubando árvores, assentando trilhos e aceitando qualquer serviço pesado que apareça. Órfão desde jovem, tenta construir um lar simples com a esposa e a filha em meio a florestas imensas, rios perigosos e incêndios repentinos. Uma tragédia violenta rompe esse frágil projeto de família e o empurra para uma vida errante entre pequenas cidades, carregando memórias que pesam mais do que a madeira que transporta. Enquanto locomotivas, fábricas e luz elétrica transformam a paisagem, ele envelhece quase invisível, cercado por fantasmas do passado e por trabalhadores tão silenciosos quanto ele. Encontros com forasteiros, indígenas, pregadores e artistas ambulantes misturam realidade e assombro, fazendo sua história oscilar entre crônica histórica e fábula melancólica. A longa travessia, da juventude à velhice, transforma uma existência anônima em reflexão delicada sobre luto, tempo e sobrevivência. Cada passo ecoa como prece contida.
Jonathan Hession / Sony PicturesNo fim da década de 1980, o exorcista-chefe do Vaticano é enviado a uma abadia espanhola recém-adquirida por uma família em luto, depois que o filho começa a apresentar comportamentos violentos, falar em línguas desconhecidas e manipular objetos sem explicação aparente. Acostumado a separar casos de doença mental de manifestações que considera genuinamente demoníacas, o sacerdote encontra ali sinais que ultrapassam o que já viu em décadas de trabalho. Conforme aprofunda a investigação, ele esbarra na resistência de membros da própria Igreja, receosos de admitir a gravidade do que se passa naquele lugar. Registros antigos descobertos em catacumbas revelam ligações entre a possessão e um capítulo obscuro da história religiosa, sugerindo uma conspiração ocultada por séculos. Entre ataques sobrenaturais, dúvidas de fé e conflitos políticos internos, o protagonista precisa enfrentar tanto o inimigo invisível quanto as omissões humanas que o fortaleceram. Ao enfrentar o mal, descobre que o medo evangeliza.
Divulgação / Annapurna PicturesNa véspera da formatura do ensino médio, duas melhores amigas conhecidas por notas impecáveis e militância estudantil descobrem que os colegas que passaram quatro anos em festas também foram aceitos em universidades de ponta. A revelação implode o orgulho construído à base de noites insones e as convence de que viveram menos do que poderiam. Determinadas a compensar o tempo perdido, elas decidem comprimir todas as experiências proibidas em uma única noite: encontrar a festa perfeita, beber, flertar, quebrar regras e, talvez, se despedir daquilo que foram até ali. A busca frenética vira jornada caótica por mansões, barcos, carros compartilhados e corredores escolares, cheia de mal-entendidos românticos, crises de identidade e confrontos dolorosos com a própria imagem de “exemplo”. Entre declarações tardias e escolhas arriscadas, as duas entendem que crescer significa aceitar mudanças, inclusive na amizade que parecia inabalável. Ao amanhecer, percebem que coragem também significa aceitar quem são verdadeiramente.
Divulgação / NeonEm Seul, uma família desempregada vive espremida num semiporão úmido, contando moedas e roubando wi-fi do vizinho. Quando o filho consegue trabalho como professor de inglês da filha de um casal riquíssimo, abre-se uma brecha para todos respirarem um pouco melhor. A oportunidade vira plano: cada parente assume uma identidade falsa e toma o lugar de antigos empregados na mansão, fingindo não se conhecerem. Entre jantares sofisticados, temporais devastadores e conversas atravessadas, pequenos detalhes de classe — odores, modos, silêncios — revelam o abismo que separa aqueles que mandam e aqueles que servem. Um segredo escondido nas entranhas da casa faz o castelo de mentiras ruir, empurrando as duas famílias para um confronto em que culpa, humilhação e desejo de sobrevivência explodem de forma irreversível. A sátira social se mistura ao suspense para revelar como a desigualdade corrói qualquer possibilidade de convivência justa. Nada permanece oculto quando a chuva cai.


