Suspense de estreia da filha de Shyamalan, com Dakota Fanning, acaba de chegar na Netflix Divulgação / The Irish Film Board

Suspense de estreia da filha de Shyamalan, com Dakota Fanning, acaba de chegar na Netflix

A inquietação que move “Observadores” nasce da própria lógica interna do filme: basta aceitar seus pressupostos para que o mecanismo narrativo comece a operar com eficiência. Mina (Dakota Fanning), uma jovem americana que tenta reorganizar a vida trabalhando em uma loja de animais na Irlanda, é encarregada de levar um papagaio a um zoológico em Belfast. A estrada que deveria ser apenas uma formalidade se transforma em um labirinto sem orientação. Quando o carro falha e a geografia passa a repetir seus contornos como se fosse um circuito fechado, ela entende que a saída mais plausível é procurar abrigo. O caminho a conduz até Madeline (Olwen Fouéré), figura enigmática que conhece bem aquele território isolado, e que a direciona a uma estrutura de concreto conhecida como The Coop. Lá dentro, Ciara (Georgina Campbell) e Daniel (Oliver Finnegan) já ocupam o espaço, habituados a cumprir um conjunto de regras rígidas cujo sentido Mina ainda desconhece.

A partir do momento em que se instala nesse refúgio improvável, o filme organiza a tensão com elementos simples: a cada noite, seres invisíveis observam os moradores através de uma grande janela unidirecional. É esse dispositivo que estabelece o cerne da narrativa. Dakota Fanning conduz Mina como alguém racional diante de uma situação que desafia qualquer explicação minimamente concreta. O comportamento dos outros três personagens segue padrões previsíveis de sobrevivência, mas é justamente nessa previsibilidade que o filme demonstra a força de sua premissa: quando tudo o que resta é adaptar-se, a repetição se torna rotina, e a rotina se torna a única forma de preservar a sanidade.

A floresta onde Mina se perde funciona como um espaço que suprime referências: caminhos idênticos, ausência de marcos, som constante de algo que se move sem revelar sua origem. A narrativa se beneficia desse vazio. O isolamento reduz a história aos seus elementos essenciais, algo próximo de um experimento controlado que coloca personagens comuns diante de circunstâncias que extrapolam o entendimento humano. Nesse sentido, a direção opta por manter o desconhecido como motor de inquietação. Os observadores, não sendo vistos de imediato, assumem papel simbólico: forças que medem, analisam, testam reações humanas. O filme parece interessado mais na dinâmica entre esses indivíduos confinados do que na explicação literal das criaturas.

O tempo dentro de The Coop se organiza de modo rígido: quando a luz do fim de tarde ameaça desaparecer, todos retornam ao interior, posicionam-se diante do vidro e aguardam a noite passar. A repetição gera atritos. Ciara tenta preservar uma aparência de normalidade, enquanto Daniel alterna entre desconfiança e desejo de ruptura. Madeline, por sua vez, entende os limites daquela convivência forçada e tenta manter algum controle, ainda que esse controle dependa de informações incompletas. Mina observa tudo com atenção crescente, e sua recusa inicial em aceitar os rituais acaba se tornando o impulso que move a narrativa adiante.

Quanto mais o filme avança, mais a lógica interna desses comportamentos passa a adquirir coerência própria. O espectador acompanha o raciocínio de Mina, que começa a questionar não apenas os observadores, mas também as regras estabelecidas. São perguntas simples: quem definiu esses procedimentos? Por que aceitar sem contestar? Para que serve a grande janela? Ao insistir nesses questionamentos, Mina expõe fissuras na estrutura do grupo, revelando a fragilidade emocional de pessoas que há muito deixaram de procurar explicações racionais para sua condição.

A revelação que se aproxima do final não tenta reorganizar o enredo de maneira dramática. Ela opera como uma resposta parcial, suficiente para conectar pontos essenciais, mas incapaz de oferecer um sistema fechado. A ideia central permanece: personagens confinados, observados por algo que escapa à compreensão imediata, tentam encontrar coerência em um mundo que deixou de funcionar segundo parâmetros conhecidos. O interesse do filme reside menos na grandiosidade da resposta e mais na forma como cada personagem lida com a ausência dela.

O percurso de Mina, do momento em que se perde na estrada até o instante em que compreende a natureza daquilo que a observa, sustenta o filme com firmeza. Cada etapa funciona como parte de uma investigação pessoal que não se resolve totalmente, mas indica uma necessidade humana simples: organizar o caos para evitar que a experiência se torne insuportável. E é justamente nesse limite entre aceitação e resistência que “Observadores” encontra sua força, deixando o espectador com a sensação de que, por mais improvável que seja o fenômeno, a pergunta mais perturbadora talvez seja outra: o que fazemos quando percebemos que alguém, ou algo, nos vigia, mesmo quando acreditamos estar sozinhos?

Filme: Observadores
Diretor: Ishana Shyamalan
Ano: 2024
Gênero: Fantasia/Mistério/Suspense
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.