A temporada mais aguardada da história da Netflix — da série mais vista da atualidade — estreou essa semana Divulgação / Netflix

A temporada mais aguardada da história da Netflix — da série mais vista da atualidade — estreou essa semana

Passado pouco mais de um ano desde a destruição em Hawkins, a história reabre num outono em que rachaduras no asfalto e patrulhas armadas lembram continuamente que nada voltou ao lugar. A quinta e última temporada de “Stranger Things”, criada por Matt e Ross Duffer e protagonizada por Winona Ryder, David Harbour, Millie Bobby Brown e Noah Schnapp, acompanha um grupo agora à beira da vida adulta, confinado numa cidade sob quarentena militar, enquanto tenta localizar Vecna e impedir que um novo plano devore, de uma vez, o que resta da fronteira entre cotidiano e pesadelo.

Logo nos primeiros episódios, a temporada assume que vive sob prazo. O governo transforma Hawkins em zona controlada, estabelece horário de recolher, restringe saídas e trata qualquer anomalia como ato terrorista, enquanto as fendas para o Outro Lado continuam abertas na paisagem. Os heróis decidem agir à margem dessa ocupação, organizando incursões noturnas batizadas de crawls para mapear brechas, rastrear criaturas e testar armadilhas improvisadas. Cada missão aumenta a chance de encontrar Vecna, mas encurta o tempo disponível antes que um novo ataque atinja alguém próximo demais.

Com o passar dos capítulos, o cerco se aperta. A quarentena endurece, o Exército usa a caça a Eleven como justificativa para revistar casas, monitorar telefones e ocupar corredores de escola. Hopper e Joyce escolhem esconder a garota em túneis e rotas discretas, aceitando transformar a vida doméstica em operação clandestina permanente. A motivação é clara: se ela cai nas mãos erradas, a guerra termina depressa, com o lado errado. O obstáculo é que cada recuo redistribui o risco entre amigos menos preparados, obrigados a cobrir espaços deixados por ela.

Ao mesmo tempo, o roteiro amplia o raio da ameaça ao baixar o foco da adolescência para a infância. A professora Miss Harris tenta manter alguma normalidade em sala de aula, mesmo quando sirenes cortam o dia e boatos sobre monstros circulam em cochichos pelos corredores. Um amigo imaginário que conversa com crianças e parece antecipar perigos liga a presença de Vecna a um tipo de medo mais íntimo, menos barulhento. Os adultos precisam decidir se acreditam nesses relatos fragmentados ou se continuam tratando tudo como fantasia em meio à crise.

Num arco que a série devia há anos, Will finalmente deixa de ser apenas o marcador de trauma coletivo e assume papel central na contraofensiva. Ele decide usar a conexão residual com o Upside Down como ferramenta, aceitando dores de cabeça, visões involuntárias e memórias intrusivas para localizar criaturas e entender sinais que ninguém mais consegue decifrar. O impulso de proteger amigos se mistura à necessidade de provar, sobretudo para si, que não é só a primeira vítima da história. O efeito dramático é ver o personagem recuperar o próprio corpo e o próprio lugar dentro do grupo.

Em paralelo, Eleven enfrenta outro tipo de dilema. Pressionada pelo Exército, tratada ao mesmo tempo como arma estratégica e ameaça incontrolável, ela precisa escolher quando entrar em combate e quando aceitar o papel de alvo escondido, cruzando túneis, aguardando notícias pelo rádio, treinando em espaços improvisados. Sua motivação é impedir novas tragédias sem repetir sacrifícios que já deixaram marcas físicas e afetivas profundas. O obstáculo está na impaciência, dela e dos outros, diante de uma guerra que se arrasta por anos e que parece sempre exigir mais um ato de heroísmo.

Mais adiante, a temporada reserva espaço generoso para o grupo de apoio que vinha ganhando peso desde o terceiro ano. Nancy, Steve, Robin, Lucas, Dustin e companhia decidem investigar por conta própria anomalias ao redor do antigo Departamento de Energia e de estruturas que funcionam como muros vivos entre Hawkins e o Outro Lado. Ao fazer isso, retiram dos protagonistas de sempre a exclusividade da ação e espalham o risco por vários núcleos. A motivação é dividir responsabilidade e culpa; o obstáculo é a dificuldade de coordenar tantas frentes sem perder coesão emocional.

Do ponto de vista formal, o primeiro volume aposta em episódios longos, mais próximos de filmes curtos do que de capítulos tradicionais, e concentra pelo menos um grande set piece em cada bloco. A reentrada de Vecna, encenada em um corredor tomado por soldados e penumbra, assume posição de centro gravitacional calculado, ecoando de maneira assumida um certo vilão mascarado de outro universo de ficção científica. Essa decisão de carregar tanto peso em um único momento dá ao meio da temporada sensação convincente de avanço, ainda que algumas conversas pareçam existir apenas para preparar esse ápice.

Há também uma pressão externa, menos dramática e igualmente presente: a escolha da Netflix de dividir a temporada em três lançamentos e estrear os primeiros episódios em feriado cria um tipo específico de ansiedade. Quem assiste tudo de uma vez sente com mais força o cansaço das durações esticadas e da multiplicação de frentes narrativas; quem prefere espaçar vê a cada semana a memória da temporada anterior disputar espaço com detalhes novos. Essa engenharia industrial molda a forma como o suspense funciona, ampliando a expectativa sobre os capítulos que ainda não chegaram.

No balanço deste primeiro bloco, a sensação é de um fim que tenta honrar a escala conquistada sem trair totalmente a intimidade dos primeiros anos. A quinta temporada insiste em colocar o perigo máximo ao lado da vida comum, de luzes piscando em casas cercadas por rachaduras, de corredores escolares tomados por soldados, de crianças tentando fazer dever de casa enquanto monstros avançam em outra dimensão. O espectador pode cansar da quantidade de personagens e missões, mas dificilmente sai ileso da imagem de uma cidade inteira esperando, de portas semicerradas, o próximo tremor vindo do subterrâneo.


Série: Stranger Things — 5ª temporada 
Criação: Matt e Ross Duffer
Ano: 2016–2025
Gêneros: Drama, ficção científica, aventura, terror, coming-of-age
Nota: 8/10