Tocou o telefone e era o Seu Osvaldo, lá de Quiprocó da Serra de Santo Grande do Sul.
— O senhor já está sabendo da notícia? — inquiriu-me antes mesmo de ouvir a minha resposta ao seu “alô”.
Lembrei-me do livro mais recente do Chico Buarque, ‘Bambino a Roma’, porque o personagem comenta que naquele exílio italiano era por meio de raras ligações telefônicas que seus pais sabiam de notícias do Brasil, do suicídio do Getúlio Vargas às derrotas do Botafogo. Já se vão quase oito anos do meu degredo e ainda tenho amigo que me manda mensagem no WhatsApp avisando coisas como “morreu Jards Macalé”, “no fim o Palmeiras se classificou para a final da Libertadores” ou “tá fazendo maior calorão aqui em São Paulo”.
Gosto de pensar que é mais para ter pretexto de uma mensagem que aplaque saudades do que vigore a ideia obsoleta de notícias circunscritas à territorialidade.
— Que notícia, Seu Osvaldo, que notícia? — rebati. E me lembrei que o Dênis Enrique, o correspondente desta coluna que mora lá em Quiprocó, me disse outro dia que estava jogando truco no bar do Macaco quando entrou o Seu Osvaldo todo esbaforido pedindo meu número de telefone. Ele queria o telefone fixo. Disse que pra conversar tem de ser com fio e tudo, de preferência num daqueles modelos de disco. Telefonema, repetia ele, e escandia as sílabas, parecia saborear a palavra. Bonita palavra. Ele queria conversar, insistia. Dênis ficou meio sem reação. E o Seu Osvaldo: então ele não é seu amigo? Como você não tem o telefone de seu amigo que está lá no estrangeiro? Dênis insistiu que o próprio Seu Osvaldo já tinha o número, é o mesmo do zap, era só me mandar mensagem, podia até ser áudio. Mas ligar, não, ligar hoje em dia é meio intrusivo, meio falta de educação. O velho saiu contrariado, bufando que nem um cavalo teimoso. Depois parece que pediu para o sobrinho, aquele que era metido a fotógrafo, porque o moleque era sabido e podia ajudar a usar os códigos de discagem internacional, porque telefonema tinha de ser telefonema, mesmo que já não desse para ligar no telefone fixo, ia ser chamada internacional feita pelo telefone celular. Seu Osvaldo queria discar meu número. Fez um te-le-fo-ne-ma para mim.
Pois ele achou que eu não soubesse que o ex-presidente do Brasil estava preso, preso mesmo — enfatizava do outro lado da linha, comparando o status atual com o período de prisão domiciliar. Pensei em cortar dizendo que eu também lia notícia mas preferi ser bem educado. Deixa o cara falar.
— Pois o senhor não sabe da missa nem a metade, meu amigo. Foi um papelão. Ele tentou arrebentar aquela pulseirinha elétrica lá que o ministro mandou para enfeitar seu tornozelo. Vê se pode. Aí não tem jeito, né? Em vez de quebrar a coleira, quebrou mesmo foi a confiança. Mandaram pra cadeia.
— Poxa, Seu Osvaldo…
E aí ele veio me contar tudo, daquele jeito dele que eu sou incapaz de reproduzir. Caprichou na ladainha. Narrou toda a peripécia envolvendo um aparelhinho de solda que acabou precipitando em alguns dias a transferência do ex-presidente da prisão domiciliar para a cela preparada para este fim na sede da Polícia Federal em Brasília.
Ouvi com atenção. Fiz só alguns reparos quando notei excessos nos comentários de Seu Osvaldo, ressaltando que vivemos em um Estado de direito, que mesmo o maior criminoso do universo precisa ser tratado conforme a lei, sem abusos, que vingança não pode ser tempero para nenhuma ação de justiça, que a humanidade construiu pilares civilizatórios também sobre valores básicos dos direitos humanos, etc.
Seu Osvaldo é um homem bom. Seu jeitão tenta mas não consegue esconder o bom coração.
— Mas mais do que lhe dar a notícia, meu filho, eu quero uma ajudinha sua — prosseguiu. — O senhor que é todo aí das letras, das palavras, das frases… Jornalista, né? Então, sabe aquelas coisas que são chamadas por nomes para homenagear alguém, alguma história?
— Como assim, Seu Osvaldo? Deu agora para estudar etimologia?
Ele não se fez de rogado. Soltou o exemplo do brechó, com aquela história, parte verdadeira, parte contornada por lendas, de que o nome que se dá para loja de roupas usadas alude a um comerciante que se chamava Belchior e vendia esses itens no Rio de Janeiro do século 19. Não foi só. Seu Osvaldo lembrou que o leite é pasteurizado porque o método foi inventado “por aquele francês, lá, o Luís Pasteur”.
— Entendi, Seu Osvaldo. Mas o que tem a ver esses orifícios linguísticos com as calças que vestem o elegante idioma?
— Daí que eu acho que essa história toda é boa demais para ser esquecida. Tem de eternizar. E o melhor jeito de eternizar é juntando a fome com a vontade de dar nome: aparelho de solda ou mesmo soldador são termos muito ruins, não acha? Pois podíamos oficializar de uma vez um nome que registrasse para toda a eternidade essa história que já virou um clássico da política brasileira.
Lá de Quiprocó, Seu Osvaldo já está fazendo campanha. Mandou imprimir cartazes com sua ideia e está preparando uma formal missiva para a Academia Brasileira de Letras. No guichê onde dá expediente na rodoviária, não perde a oportunidade de argumentar seus pontos sem nó para todo cliente que permite um fiapo de prosa: diz que não vai sossegar enquanto o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, catatau que documenta todas as palavras em circulação, não grafar o termo bolsoniro, cunhado por ele, para designar “aparelho portátil para a realização de soldas a quente”.
