Biografia de herói pouco conhecido da Segunda Guerra chega à HBO Max Divulgação / See Saw Films

Biografia de herói pouco conhecido da Segunda Guerra chega à HBO Max

O primeiro impacto de “Uma Vida: A História de Nicholas Winton” não vem das cenas de guerra, mas da inquietação silenciosa que acompanha Anthony Hopkins enquanto ele percorre a própria memória como quem revisita um deslizamento antigo que nunca cessa de mover a terra. O filme entende que o passado não retorna em linha reta: ele contamina, infiltra, captura o presente pelas brechas mais cotidianas. E é nesse jogo entre o homem envelhecido e suas lembranças que a narrativa encontra a força para reconstruir, sem sentimentalismo, o percurso de alguém que recusou a passividade diante da barbárie.

Johnny Flynn entra em cena como a versão jovem de Nicholas, ainda tentando conciliar o mundo confortável do escritório com a urgência que cresce em Praga. Os gestos hesitantes do início, visivelmente distantes do caos dos refugiados, logo dão lugar a um movimento mais disciplinado, quase teimoso. Ele compreende que o avanço nazista não é uma abstração geopolítica: tem cheiro, frio, crianças sem destino. É nesse ponto que Helena Bonham Carter, interpretando a mãe dele, torna-se mais do que uma figura de apoio; ela impõe ao filho o tipo de franqueza moral que derruba portas e deixa burocratas nervosos. A cena em que ela confronta um funcionário público é uma pequena vitória contra a paralisia institucional, um lembrete de que coragem também pode ser administrada em doses de ferocidade educada.

A alternância entre os dois períodos nunca soa como efeito ou recurso de comodidade. O filme constrói um ritmo próprio ao mostrar Hopkins interrompido por pequenos objetos, correspondências, fotografias que funcionam como gatilhos. O espectador não está apenas acompanhando lembranças; está sendo convocado a compreender o que significa viver décadas tentando decifrar o peso de decisões tomadas sob pressão. As sequências dos trens, com crianças numeradas esperando por uma chance de sobrevivência, são costuradas com os embates diplomáticos que Nicholas enfrenta ao lado de amigos como Trevor e Doreen. A câmera não insiste em dramatizações artificiais: deixa a realidade trabalhar sozinha, justamente porque ela dispensa adornos.

No centro de tudo está a lógica simples que movia Nicholas: se existe uma possibilidade mínima de ajudar, a hesitação perde sentido. Esse raciocínio desconforta porque atinge um ponto que preferimos evitar: a maioria de nós observa tragédias à distância, como quem torce para que outro intervenha. O filme, porém, confronta essa expectativa ao colocar Hopkins diante do passado que pensou ter enterrado. Ele percebe que sua famosa aparição no programa de TV, reencontrando sobreviventes, não encerra a história; apenas revela a dimensão coletiva de um gesto que parecia individual.

O desfecho escancara a ironia amarga de um mundo que continua produzindo catástrofes semelhantes, como se a memória histórica fosse um arquivo onde insistimos em clicar em apagar. Ainda assim, o filme sugere que há um tipo de humanidade que persiste, mesmo quando governos fracassam. E, se existe algo de transformador nessa narrativa, é a constatação de que a bondade, quando praticada com disciplina e lucidez, altera trajetórias de modo irreversível.

“Uma Vida: A História de Nicholas Winton” não funciona como monumento nem como lição moral; funciona como lembrete incômodo de que a compaixão só tem valor quando atravessa o risco. Hopkins e Flynn conduzem essa verdade com precisão emocional rara, e o filme, ao final, nos deixa diante de uma pergunta que não envelhece: o que fazemos quando entendemos que ninguém mais virá?

Filme: Uma Vida: A História de Nicholas Winton
Diretor: James Hawes
Ano: 2023
Gênero: Biografia/Drama/História
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★