O primeiro filme em língua não inglesa a ganhar o Oscar de Melhor Filme chegou a Netflix Divulgação / Neon

O primeiro filme em língua não inglesa a ganhar o Oscar de Melhor Filme chegou a Netflix

A história de “Parasita”, dirigido por Bong Joon-ho e interpretado por nomes como Song Kang-ho, Cho Yeo-jeong e Park So-dam, parte da tentativa de uma família sem renda fixa encontrar uma brecha mínima para mudar de posição, mesmo que isso envolva assumir identidades improvisadas e avançar, passo a passo, sobre o conforto alheio. O conflito central se define quando essa família decide ocupar funções em uma casa muito mais rica, pressionada pela urgência de pagar contas atrasadas e pela sensação de que qualquer hesitação pode fechar a única porta disponível. A cidade ao redor, com suas escadas íngremes e becos úmidos, cria o clima adequado para que cada decisão pareça um movimento calculado e, ao mesmo tempo, arriscado demais para ser abandonado pela metade.

À medida que o primeiro plano é executado, a motivação do grupo cresce: uma renda estável, mesmo que sustentada por ficções. A dificuldade surge quando cada membro percebe que precisa aprimorar o disfarce para manter o posto recém-conquistado. A proximidade com os patrões aumenta a vigilância, e o simples ato de atravessar um corredor silencioso passa a exigir cautela. A cada avanço, o risco se amplia porque qualquer deslize coloca todos em perigo. Ainda assim, eles seguem adiante, impulsionados por uma mistura de necessidade prática e orgulho teimoso.

Depois, quando a segunda etapa se firma, o obstáculo se reforça: a casa dos ricos se torna um lugar repleto de pontos cegos. Portas fechadas guardam ruídos incertos, e a família infiltrada aprende a conduzir seus movimentos segundo o humor dos patrões. Nessa fase, Bong Joon-ho ajusta o ritmo com cortes que alternam ambientes apertados e áreas amplas, reforçando o contraste espacial que sustenta as decisões. A família pobre, em vez de recuar, decide se aprofundar ainda mais no novo cotidiano, imaginando que a convivência constante garantirá proteção. Só que esse gesto, longe de estabilizar a vida, empurra todos para um labirinto de vigilâncias.

Já em outro momento, quando a situação parece controlada, um imprevisto quebra o procedimento cuidadosamente montado. Nada grandioso, apenas um detalhe que exige reação imediata. É aí que os personagens percebem que mover-se dentro daquela casa implica alterar o próprio julgamento: antes agiam para sobreviver, agora precisam proteger a farsa. O obstáculo se transforma em ameaça simultânea à renda e à integridade física, e essa sobreposição gera uma tensão que não depende de música alta ou movimentos bruscos. A câmera, fixa por alguns segundos, mostra a hesitação de quem enxerga o risco avançar pelo mesmo corredor que antes lhes dava segurança.

Ao mesmo tempo, cada um enfrenta sua própria dose de pressão. O pai, interpretado por Song Kang-ho, toma decisões que revelam fadiga e um ressentimento que vinha acumulando em silêncio. A filha, vivida por Park So-dam, tenta manter a lucidez, mas esbarra em limites emocionais que minam o domínio que acreditava ter. A mãe e o filho seguem caminhos parecidos, cada qual lidando com a perda progressiva de controle. As escolhas, nesse ponto, alteram não apenas o rumo da farsa, mas o vínculo entre eles. A proximidade forçada na casa subterrânea de origem contrasta com a distância crescente no interior da casa rica, onde o silêncio se torna incômodo e, às vezes, quase insuportável.

Em certo momento, um efeito aparente de triunfo reacende o objetivo original, dando a todos a sensação de que o pior já passou. Mas essa impressão dura pouco. O obstáculo seguinte exige uma resposta mais audaciosa, e a hesitação quase causa um desastre. Aqui, uma microdigressão se impõe: certa vez, numa sessão lotada, um espectador atrás de mim comentou baixinho que aquela casa parecia grande demais para o próprio filme. Curiosa observação, porque é justamente essa amplitude que engole os personagens, ampliando sombras e ruídos até que cada passo soe mais alto do que deveria.

Às vezes, a montagem acelera e o grupo reage no impulso. A casa, que antes era apenas cenário, se transforma em adversária. Portas fechadas escondem não só segredos, mas provas potenciais de fraude. O silêncio, antes aliado, passa a denunciar presenças indevidas. A chuva, que cai repentinamente, arrasta o que resta da estabilidade dos pobres e compromete a estratégia construída com tanto cálculo. A partir desse ponto, a diferença entre agir e esperar se torna quase irrelevante, porque qualquer escolha resulta em risco igual. O cerco emocional endurece, e ninguém parece disposto a interromper a sequência de decisões que os trouxe até ali.

Em outro trecho, uma conversa aparentemente banal altera o jogo. Não pela informação direta, mas pelo modo como a patroa, interpretada por Cho Yeo-jeong, revela fragilidade sem perceber. Esse detalhe faz o pai reavaliar sua posição dentro da casa, e a dúvida se transforma em motivação renovada. No entanto, o obstáculo logo reaparece: a presença inesperada de alguém que não deveria estar ali. A resposta, improvisada e urgente, redireciona o conflito para um ponto onde o risco supera qualquer benefício imediato.

Quando tudo se encaminha para o momento de maior perigo, a sensação é de que cada corredor contém uma ameaça e cada porta fechada guarda uma verdade que ninguém quer ouvir. A luz fria da casa rica, combinada ao eco distante da chuva que insiste em voltar, pressiona os personagens a tomarem uma decisão que definirá sua própria sobrevivência. A consequência imediata não resolve nada; apenas desloca a tensão para o próximo gesto, para a próxima palavra, para o próximo silêncio que se instala no ar úmido da madrugada.

Filme: Parasita
Diretor: Bong Joon Ho
Ano: 2019
Gênero: Drama/Thriller
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★