Se existe um filme obrigatório na Netflix, é a obra-prima de Alexander Payne que foi indicada a 5 Oscars em 2024 Divulgação / Focus Feature

Se existe um filme obrigatório na Netflix, é a obra-prima de Alexander Payne que foi indicada a 5 Oscars em 2024

Em pleno recesso de Natal de 1970, um grupo de alunos permanece num internato coberto de neve, enquanto colegas partem para casas e viagens. Em “Os Rejeitados”, Alexander Payne acompanha o professor de Estudos Clássicos Paul Hunham, vivido por Paul Giamatti, o estudante Angus Tully, interpretado por Dominic Sessa, e a cozinheira Mary Lamb, papel de Da’Vine Joy Randolph, confinados na Barton Academy. O conflito central está em saber se essa convivência forçada pode desmontar as defesas que cada um ergueu para suportar a própria solidão.

A direção da escola decide que é preciso um adulto para vigiar os alunos que ficam e escolhe justamente o docente mais antipático do quadro, gesto de conveniência. Paul aceita a tarefa porque não tem para onde ir, mas também por orgulho, decidido a provar que ainda exerce autoridade num ambiente que o trata como excêntrico incômodo. Angus permanece porque a família, envolvida em conflitos e agendas, prefere deixá-lo ali, terceirizando a responsabilidade. Mary continua na cozinha porque o trabalho é o que resta depois da morte do filho no Vietnã, notícia que chegou em um envelope oficial e nunca saiu da cabeça. A decisão administrativa isola os três num edifício enorme, e cada refeição servida, cada ordem dada ou descumprida, aperta um pouco mais o laço desse cerco.

Nos primeiros dias, Paul transforma o feriado em extensão do ano letivo, impondo aulas extra, provas surpresa, horários rígidos. A motivação é manter algum controle sobre um cotidiano que, fora da sala de aula, lhe escapa completamente. Angus reage com ironias, pequenos atrasos, brincadeiras calculadas para expor o ridículo da disciplina em pleno Natal. O obstáculo é o regulamento, que dá ao professor poder amplo para punir e restringir movimentos. Mary observa a disputa, decide intervir com gestos mínimos — um pedaço de torta a mais, uma resposta atravessada, uma música no rádio da cozinha —, tentando aliviar a tensão sem perder o emprego. O efeito é uma comédia seca, feita de humilhações mútuas e pequenas gentilezas, em que cada gesto desloca um pouco a hierarquia original.

À medida que outros alunos recebem autorização para viajar, o colégio esvazia e a Barton Academy passa a ser filmada como uma espécie de navio parado, com corredores longos, salas escuras e um ginásio vazio. A direção endurece as ordens à distância, exige relatórios, telefona para saber se está “sob controle”, e Paul se agarra a essa vigilância como escudo. Angus decide testar os limites do cerco com passeios breves à cidade, uma garrafa escondida, um encontro improvisado longe dos muros. Mary, dividida entre proteger o emprego e cuidar emocionalmente daquele adolescente, aceita alguns desvios, desde que consigam voltar antes de qualquer inspeção inesperada. Cada saída altera o equilíbrio: ao atravessar o portão, eles experimentam outra vida possível, mas, ao retornar, sentem o peso redobrado de um lugar que prefere gente quieta.

Em certo momento, uma decisão da família de Angus, alinhada à conveniência da escola, ameaça removê-lo daquele convívio em condições que soam mais punitivas do que acolhedoras. O rapaz, magoado e assustado, responde com faltas, provocações, pequenos atos de sabotagem. Paul, que por anos tratou a rebeldia juvenil como problema administrativo, hesita ao perceber o grau de abandono que sustenta aquele comportamento. Mary, acostumada a instituições que lidam com pessoas negras e pobres de forma distante, reconhece na postura da direção um tipo de descaso familiar. O obstáculo já não é a neve, mas a própria lógica burocrática de Barton, que transforma biografias em prontuários. A consequência é um aumento real do risco: qualquer relatório mal escrito pode redefinir o destino do garoto.

O ponto de maior pressão chega quando um incidente fora do campus retorna como queixa formal e obriga Paul a redigir um documento decisivo sobre Angus. Ele pode seguir a cartilha disciplinar, registrar apenas faltas e insolências, proteger o cargo e manter a escola satisfeita. Pode também assumir parte da responsabilidade, admitir que afrouxou regras, arriscar sua posição em nome de uma visão mais complexa daquele aluno. O que o move nesse impasse não é uma súbita bondade abstrata, e sim a experiência concreta de ter dividido refeições, piadas e humilhações ao longo daquele inverno. O obstáculo está numa cultura escolar que recompensa quem não complica o fluxo dos dossiês. A escolha que ele faz ali muda imediatamente o nível de proteção, de ameaça e de liberdade para os três.

Depois desse gesto, a pressão não desaparece, apenas se reorganiza. As conversas na cozinha tornam-se um pouco menos formais, os silêncios à mesa deixam de soar inteiramente hostis, e a neve do lado de fora parece menos uma parede e mais pano de fundo para despedidas anunciadas. Mary precisa decidir se continuará servindo gerações de garotos que raramente olham para quem lhes prepara a comida ou se buscará outro tipo de futuro, levando a memória daquele filho ausente e desses meses estranhos. Angus encara a perspectiva de voltar para uma casa que não o quer ou de permanecer numa escola que só o aceita com ressalvas. Paul percorre corredores vazios como quem revisa décadas de provas corrigidas e oportunidades perdidas, sem saber exatamente qual porta ainda pode abrir. A Barton Academy continua erguida, enquanto os rejeitados daquele Natal deixam para trás o eco distante de um ônibus partindo, sinal de que o confinamento também pode produzir laços.

Filme: Os Rejeitados
Diretor: Alexander Payne
Ano: 2023
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★