Mark Wahlberg e Kit Harington voltam em uma comédia de ação que não resolve sua vida, mas garante algumas risadas na Apple TV Divulgação / Apple Original Films

Mark Wahlberg e Kit Harington voltam em uma comédia de ação que não resolve sua vida, mas garante algumas risadas na Apple TV

“Plano em Família 2” tenta seguir a trilha do sucesso anterior com o mesmo entusiasmo de quem insiste em repetir uma história que já perdeu seu encanto, e é justamente nesse gesto automático que o filme se fragiliza. A narrativa acompanha Dan Morgan, vivido por Mark Wahlberg, decidido a tirar a família do caos cotidiano e embarcar em uma viagem à Europa que deveria selar, ao menos por alguns dias, uma trégua entre obrigações e expectativas. Só que Dan carrega um histórico profissional que insiste em retornar como uma sombra inconveniente, e essa bagagem volta a se manifestar no pior momento possível: quando todos acreditam estar às portas de uma temporada de descanso. Michelle Monaghan, Zoe Colletti e Van Crosby compõem o restante do núcleo familiar, cada um tentando reagir a uma avalanche de perigos que não pediu para enfrentar.

A premissa, que poderia render um jogo interessante entre intimidade doméstica e perseguições internacionais, opta por um caminho previsível demais para quem já conhece a lógica de sequências que ampliam a geografia, mas diminuem a personalidade. O filme aposta em locais turísticos como se a troca de cenários compensasse a falta de fôlego dos conflitos. Dan e os filhos, antes envolvidos em um tom mais leve, agora se deslocam por cidades europeias enquanto tentam escapar de inimigos que soam genéricos a ponto de desaparecerem da memória antes mesmo de saírem de cena. Kit Harington entra na trama com promessas de ser uma figura decisiva, mas o personagem é subutilizado, orbitando o enredo sem de fato transformar a história ou tensionar a jornada dos Morgan.

Esse esvaziamento não acontece por ausência de talento do elenco, mas por escolhas que suavizam demais qualquer chance de complexidade. A dinâmica familiar, que poderia funcionar como contraponto emocional ao perigo constante, fica reduzida a reações rápidas, como se ninguém tivesse tempo de refletir sobre o absurdo de viver de mala na mão enquanto velhas ameaças ressurgem. Há tentativas de humor espalhadas em diálogos que buscam aliviar a tensão, mas a maioria delas se perde pela falta de timing ou pela pressa do roteiro em avançar para a próxima perseguição. O resultado é um filme que mantém ritmo, mas não mantém alma.

Mark Wahlberg ainda sustenta Dan como um homem dividido entre proteger quem ama e lidar com escolhas passadas, embora o roteiro raramente permita que esse conflito se expanda para além de frases pragmáticas. Michelle Monaghan tenta equilibrar firmeza e vulnerabilidade, mas sua personagem quase sempre reage aos acontecimentos, em vez de conduzi-los. Zoe Colletti e Van Crosby têm energia suficiente para trazer leveza, porém seus momentos mais interessantes são interrompidos por cenas de ação que não justificam o espaço que ocupam. Tudo corre, tudo explode, mas pouco reverbera.

A narrativa poderia explorar o contraste entre uma família tentando preservar sua normalidade e um pai preso às consequências de uma vida anterior que nunca se dissolveu. No entanto, o filme prefere não aprofundar nada disso e se acomoda em uma sequência de eventos que funcionam apenas como entretenimento imediato. As perseguições são competentes, mas raramente vibrantes. Os vilões entram e saem sem deixar rastro. O suposto grande mistério que envolve Dan é tratado com uma simplicidade que contradiz qualquer tentativa de criar tensão real.

Fica a impressão de que “Plano em Família 2” tenta reunir humor, ação e laços afetivos como quem arruma uma mala apressada: tudo está ali, mas nada está organizado de modo a criar impacto. A família Morgan até merece novos capítulos, só não dessa forma tão automática, tão presa à fórmula que a esvazia. O filme diverte em momentos isolados, mas se dispersa quando tenta justificar sua existência. E talvez seja justamente essa pergunta, silenciosa e incômoda, que acompanha o espectador após a sessão.

Filme: Plano em Família 2
Diretor: Simon Cellan Jones
Ano: 2025
Gênero: Ação/Comédia
Avaliação: 7/10 1 1
★★★★★★★★★★