“Ghostbusters: Apocalipse de Gelo” se movimenta como um grande espetáculo que tenta equilibrar duas expectativas conflitantes: resgatar uma mitologia que marcou gerações e, ao mesmo tempo, sustentar uma narrativa própria. O resultado é irregular, mas fascinante justamente por esse atrito. Desde os primeiros minutos, a sensação é de que o filme carrega mais camadas do que consegue administrar. A família Spengler retorna a Nova York com a intenção de reforçar o legado dos caça-fantasmas originais, mas o que deveria funcionar como um reencontro simbólico acaba se enroscando em disputas internas e desvios dramáticos que corroem parte da força da história. Phoebe, interpretada por Mckenna Grace, desperta um interesse imediato pela forma como tenta equilibrar genialidade precoce com fragilidades reais, mas o roteiro insiste em colocá-la em situações que diluem essa potência.
O episódio no qual Phoebe e Podcast, vivido por Logan Kim, atendem um chamado em um restaurante encapsula essa curva descendente. Ali, a aparição do espírito adolescente com quem Phoebe cria um laço desconfortavelmente incerto interrompe o ritmo de tudo ao redor. A partir dali, a trama parece perder o eixo, como se tentasse acomodar uma subtrama que não sustenta afetos nem contribui para a escalada de tensão associada à ameaça sobrenatural que avança sobre a cidade. Essa energia desviada causa um efeito dominó: personagens periféricos passam a disputar espaço com conflitos mais urgentes, e a narrativa se enche de cenas que parecem ecoar sem propósito. Sunny, interpretada por Celeste O’Connor, e o próprio Podcast são reinseridos quase por obrigação, enquanto Trevor, vivido por Finn Wolfhard, acaba relegado a interações meramente funcionais, especialmente quando passa a cuidar de Slimer, reduzido a gag recorrente.
Mesmo assim, entre as frestas desse excesso pulsam momentos que lembram por que a franquia continua despertando devoção. A presença de Ray, interpretado por Dan Aykroyd, reacende um certo vigor que estava adormecido. Ele carrega uma energia que combina entusiasmo nerd com aquele improviso ingênuo que sempre foi uma marca do personagem. Winston, vivido por Ernie Hudson, retorna com uma postura de mentor que nunca soa artificial, enquanto Bill Murray, como Peter Venkman, entra em cena com a mesma calma irreverente de quem conhece o próprio impacto. A breve interação entre esse trio produz a fagulha nostálgica que muitos esperavam, ainda que o filme tente não depender exclusivamente desse conforto emocional.
O universo sobrenatural, por sua vez, encontra respiros mais criativos quando introduz entidades como Pukey e Possessor. Esses fantasmas, mesmo surgindo rapidamente, têm personalidade o suficiente para justificar sua presença e lembrar ao público que a franquia sempre funcionou melhor quando abraça o grotesco cômico. O antagonista principal desta vez, embora não seja revolucionário, representa ao menos uma tentativa de escapar da repetição que atormenta continuações baseadas apenas na força da marca. Ele atua como catalisador para que a cidade volte a parecer um organismo vivo, ameaçado por algo que mistura humor, caos e mito.
O grande problema é que tudo isso acontece dentro de um filme que luta contra si mesmo. O estúdio teria exigido cortes significativos semanas antes da estreia, e essa compressão se sente a cada transição brusca, especialmente quando sequências inteiras parecem ter evaporado entre uma cena e outra. Essas lacunas prejudicam o acúmulo de tensão e sabotam relações que exigiriam mais tempo para ganhar densidade verdadeira. A sensação é de um quebra-cabeça cuja imagem final existe, mas cujas peças foram reorganizadas às pressas.
Mesmo com seus tropeços, o filme reserva pequenos instantes de encanto. Em certo momento, a narrativa abandona o ruído que a cerca e recupera um tipo de espírito aventureiro que dialoga com o imaginário de quem descobriu os caça-fantasmas ainda na infância. Uma lembrança involuntária desse arrepio inicial, dessa mistura de medo e graça que parecia exclusiva da primeira vez em que se viu Ray, Egon, Peter e Winston encarando o desconhecido com humor e improviso.
“Ghostbusters: Apocalipse de Gelo” não encontra equilíbrio absoluto, mas captura, ainda que por instantes espalhados, o afeto que sustenta a franquia há quarenta anos. E essa experiência fragmentada talvez seja a melhor síntese de um mundo que insiste em revisitar seus próprios mitos enquanto tenta reinventá-los. Uma contradição inevitável, mas que ainda guarda algum magnetismo justamente por expor suas imperfeições.
★★★★★★★★★★




