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Chegou à Netflix a série que fãs de samurais pediam há anos — e ela já domina as conversas de 2025 Divulgação / Netflix

Chegou à Netflix a série que fãs de samurais pediam há anos — e ela já domina as conversas de 2025

Para os samurais, a honra era mais do que uma virtude. Expoentes de uma tradição forjada na disciplina e na lealdade, esses guerreiros do Japão feudal encontravam no Bushidō a lei da vida e da morte. O samurai devia ser fiel a seu senhor até as últimas consequências, seguindo o “caminho do guerreiro”, e se falhasse, estava condenado para sempre. O opróbrio de ter a reputação irremediavelmente maculada era a senha para o autossacrifício, e o seppuku representava a única maneira de enobrecer a memória de seus ancestrais. O confronto de 292 desses soldados caídos em desgraça por um prêmio de bilhões de ienes é o mote central de “Até o Último Samurai”, série que mistura o sobrestimado “Round 6” (2021-2025), de Hwang Dong-hyuk, e “Xógum: A Gloriosa Saga do Japão” (2024), de Jonathan van Tulleken e Frederick E.O. Toye, vencedora do Emmy de Melhor Série Dramática de 2024. Michihito Fujii, Kento Yamaguchi e Toru Yamamoto dirigem cada um dois dos seis episódios, mirando o espírito do mangá de Shogo Imamura ilustrado por Katsumi Tatsuzawa, e no roteiro de Fujii e Risa Yashiro nota-se o refinamento dos diálogos e das situações, uma marca do gênero.

O Japão do final do século 19 oferece o cenário perfeito para que Fujii, Yamaguchi e Yamamoto iluminem as desigualdades sociais da era Meiji, que deságuam na Rebelião de Satsuma, entre 29 de janeiro e 24 de setembro de 1877. Ao longo desses oito meses, o novo governo imperial acabou com os privilégios dos samurais, visando a modernizar as forças armadas e as incipientes tropas de policiamento. Shujiro Saga, um talentoso espadachim agora marginalizado, precisa asseverar o sustento da mulher e dos dois filhos do casal, e seu moral sofre um abalo severo quando uma das crianças morre de cólera e sua esposa pode ser a próxima vítima. A solução mágica toma corpo na forma de um panfleto que conclama mestres em artes marciais a comparecer ao Templo de Tenryūji, em Quioto, a capital do império nipônico, para apresentações pagas. Shujiro e seus 291 rivais chegam sem saber exatamente no que consiste a proposta, recebem etiquetas numeradas e o jogo começa: quem tirar a maior quantidade de etiquetas ou somar a maior pontuação vence. Para isso, vale tudo.

A abertura detalha os eventos da Guerra Boshin (1868-1869), quadra da história do Japão em que os samurais foram decisivos para o fim do xogunato Tokugawa e a ascensão de Meiji (1852-1912) ao poder. Agora descartados, sentem-se traídos, e catalisam sua fúria em enfrentamentos de autodestruição, mas que guardam um elaborado plano de vingança. Personagens como Shujiro e Futaba, unidos pela miséria e pela vergonha, são o emblema de uma classe injustamente desprestigiada, ávida por reparação, e Jun’ichi Okada e Yumia Fujisaki respondem pelos melhores lances de uma passagem nebulosa da moderna sociedade japonesa, comodamente posta de lado. Também produtor, Okada se esforça nesse resgate, que terá continuação em 2026.


Série: Até o Último Samurai
Direção: Michihito Fujii, Kento Yamaguchi e Toru Yamamoto
Ano: 2025
Gêneros: Drama, ação, suspense
Nota: 8/10

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.