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Clássico de Ibsen ganha vida nova no Prime Video — e você vai querer discutir depois na mesa do bar Divulgação / Orion Pictures

Clássico de Ibsen ganha vida nova no Prime Video — e você vai querer discutir depois na mesa do bar

A intensidade que circula entre desejo e autodestruição encontra em “Hedda” um campo de batalha elegante e cruel. Tessa Thompson interpreta uma mulher que transforma cada gesto numa provocação ao mundo que tenta domesticá-la. Sua presença pulsa como um lembrete incômodo: quando uma protagonista se recusa a ser exemplo de nada, ela inevitavelmente se torna perigosa demais para qualquer estrutura que pretenda controlá-la. O título reduz o nome a uma só palavra porque nenhuma outra seria capaz de conter essa figura que transborda ficção e realidade.

Nia DaCosta rompe com a reverência esperada diante do clássico de Ibsen e cria algo mais audacioso que uma simples atualização. A noite interminável em que tudo se passa não é apenas recurso dramático: funciona como metáfora de um tempo suspenso, em que convenções sociais se enfraquecem e desejos interditos ganham luz própria, mesmo que difusa. Nesse cenário, Hedda tenta impor sua lógica pessoal. Porém, o poder que ela acredita manipular escorrega entre os dedos com a mesma velocidade do champanhe servido em copos que ninguém esvazia.

A protagonista vive no território instável entre o fascínio e a ameaça. Cada escolha parece pensada para desafiar expectativas, mas seu impulso de ruptura é atravessado por um cansaço existencial que nenhuma vitória emocional é capaz de aplacar. Essa contradição é o que torna sua trajetória irresistível: Hedda quer governar o próprio destino, mas sua maior prisão é a incapacidade de sentir que qualquer liberdade seja suficiente.

O ambiente criado por DaCosta funciona como personagem que se impõe. O apartamento-festa possui clarões que iluminam demais a mentira e sombras que escondem qualquer chance de sinceridade. As pessoas se aproximam como cúmplices, mas se afastam como rivais. Tudo ali parece convidar ao jogo, ainda que o tabuleiro tenha sido projetado para que Hedda sempre perca um pouco de si a cada rodada. A diretora não precisa declarar tese alguma: basta observar como os corpos se movem para entender que as grades desse espaço sofisticado são invisíveis, porém inescapáveis.

Nos encontros que Hedda estabelece, nenhum é tão eletrizante quanto aquele com Eileen, interpretada por Nina Hoss com precisão emocional que fere. Há tensão, desejo e uma cumplicidade que ameaça destruir pilares morais cuidadosamente protegidos. A presença de Eileen desestabiliza Hedda não por oposição, mas porque ela evidencia aquilo que a protagonista mais teme: alguém capaz de existir com liberdade real, sem justificar a própria fome de mundo.

A ambição do filme é clara e, em certos momentos, supera o próprio fôlego. Algumas curvas dramáticas pediriam mais tempo para respirar. Certos personagens parecem carregados de complexidades que o roteiro apenas insinua. Ainda assim, nada soa gratuito. Quando DaCosta escolhe priorizar a ferida em vez do curativo, ela assume riscos que poucos diretores ousariam abraçar. O resultado pode ser irregular, mas jamais tímido.

O desconforto é parte essencial da experiência. A trajetória de Hedda denuncia que a independência feminina costuma ser celebrada apenas até ultrapassar limites impostos por olhares alheios. Quando ela decide ser protagonista absoluta do próprio enigma, tudo ao redor conspira para enquadrá-la de novo. É nesse embate que o filme encontra sua força: questionar quem paga a conta quando uma mulher decide viver em plenitude.

O impacto final não depende de choque barato. A revelação mais intensa recai sobre o espectador que reconhece, na ruína dessa personagem, a violência cotidiana de viver em desacordo com o papel previamente designado. Tessa Thompson entrega esse colapso com a arrogância de quem sabe que não nasceu para pedir desculpas e, por isso mesmo, jamais será perdoada.

“Hedda” é provocação, contradição e chama acesa. Nia DaCosta não busca consenso. Ela oferece uma história em que a inquietação nunca é punida pelo silêncio e em que o poder feminino permanece indomado, mesmo quando tudo tenta reduzir sua chama a controle e arrependimento. A experiência permanece na mente muito depois dos créditos: um lembrete de que certas mulheres não cabem em polidez alguma. E que é exatamente nesse excesso que reside sua incomparável força.

Filme: Hedda
Diretor: Nia DaCosta
Ano: 2025
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★