Uma jovem em Oslo muda de curso mais de uma vez, troca de emprego e tenta equilibrar curiosidade com a necessidade de pagar contas e sustentar relações. Em “A Pior Pessoa do Mundo”, Renate Reinsve interpreta Julie, enquanto Anders Danielsen Lie vive Aksel, parceiro mais velho com ambições definidas, e Herbert Nordrum encarna Eivind, atração que convida a um tipo de presente sem tanta cobrança. A direção é de Joachim Trier. O conflito se apresenta cedo: conciliar autonomia e compromisso quando cada avanço em um campo pressiona escolhas no outro.
No primeiro trecho, Julie decide abandonar uma formação promissora para experimentar outra área; o efeito imediato é recuperar a sensação de novidade e perder o mapa seguro de turma e calendário. Em casa, posterga conversas sobre prazos de vida adulta; a postergação preserva uma paz breve e acumula contas emocionais. Ao se aproximar de Aksel, aceita um vínculo com alguém que já fechou ciclos e projeta passos futuros com precisão de agenda. Ganha abrigo e referências, mas encontra o peso de metas que ainda não sabe se deseja. A cada jantar com amigos dele, percebe a diferença de estágios e contabiliza concessões em viagens, horários e convites recusados.
Um encontro em festa desloca o centro da narrativa. Julie decide atravessar a cidade e, diante de Eivind, testa limites sem comprometer ninguém imediatamente; o efeito é ordenar perguntas que já rondavam sua rotina. Ela volta para casa interessada em medir até onde a curiosidade interfere no compromisso em curso. Eivind retorna ao trabalho com um entusiasmo que contamina decisões seguintes. Desse ponto em diante, escolhas parecem pequenas, porém acumulam consequências que realinham a semana e reprogramam o que cada um chama de futuro próximo.
A relação com Aksel ganha espessura na medida em que o trabalho dele exige presença pública e viagens. Ele quer filhos em prazo definido; ela hesita diante de um calendário que ainda não domina. Quando Julie publica um texto pessoal, recebe elogios e convites que validam uma versão de si mesma menos acomodada. Aksel lê o mesmo texto como sinal de distância crescente. Essa diferença de leitura atravessa novas discussões: quem abre mão do fim de semana, quem cede o apartamento, quem aguenta ver a carreira do outro avançar enquanto a própria precisa de tentativas adicionais.
A partir do reencontro com Eivind, Julie encara a hipótese de uma rotina mais leve. Decide mudar; o efeito é euforia de começo e renda incerta. A nova organização entusiasma nas primeiras semanas, com turnos flexíveis e promessas de projetos. Aos poucos, despesas e prazos reaparecem: aluguel, compromissos, cansaço. Eivind aceita postergar decisões difíceis, e esse acordo funciona enquanto nada externo exige resposta imediata. Quando pressões financeiras apertam, cada saída divertida cobra saldo no dia seguinte. A casa nova concentra tarefas, empilha louça e papéis, e a dupla precisa negociar quem assume responsabilidades que ninguém escolheu por gosto.
A cidade opera como barômetro do estado de Julie. Em certos momentos, ela atravessa ruas com urgência e a vida parece acompanhar seu impulso; em outros, a rotina desacelera, impondo filas, horários e fardos. Essas variações não aparecem como adorno, mas como tradução de como desejos tentam dobrar o cotidiano. Farmácia, mercado e expediente compõem o campo onde o corpo aprende o alcance e o limite de cada decisão. Quando Julie corre para um encontro que julga decisivo, a pausa que obtém do mundo evidencia tanto o poder quanto a fantasia do controle que ela busca exercer.
A família participa por perguntas que doem mais pela insistência do que pela forma. Em um almoço, uma parente questiona maternidade e carreira; Julie responde com educação, porém o olhar denuncia recuo. O assunto deixa um rastro que atravessa outras cenas. Ela testa um emprego que oferece reconhecimento sem estabilidade; ele fecha compromissos que pedem presença. A discrepância de agendas transforma carinho em planilha de renúncias. Não há culpados: há registro de escolhas acumuladas. O filme mostra quem dorme fora, quem cancela consulta, quem perde o timing de uma conversa importante.
Uma notícia de saúde muda o eixo e devolve Julie a um lugar em que passado e presente precisam conversar. Aksel necessita de acompanhamento e propõe encontros que funcionam como inventário do que viveram. Eles caminham, lembram, riem de coisas que já não doem tanto, e o que parecia disputa transforma-se em leitura compartilhada de anos que não voltam. Esses encontros produzem dois efeitos: permitem que os dois reconheçam o valor do que houve e deixam claro o desequilíbrio de prazos que os separou. Quando Aksel fala de objetos e histórias que moldaram sua vida, expõe um tipo de compromisso que Julie talvez venha a desejar, mas não naquele tempo. Quando ela admite que precisa testar mais possibilidades, assume a responsabilidade por escolhas que feriram alguém querido.
A relação com o pai biológico oferece contexto para a alergia de Julie a promessas rígidas. Ligações interrompidas, encontros adiados e mensagens protocolares compõem um histórico de ausências discretas que pesam mais do que brigas abertas. Esse arquivo afetivo interfere na forma como ela escuta prazos e convites, e também explica por que certos gestos de Aksel soam, ao mesmo tempo, acolhedores e difíceis de aceitar. O contraste entre amigas que estabilizaram carreira e família e sua trajetória em zigue-zague intensifica a sensação de atraso, ainda que os fatos mostrem uma vida em movimento.
Em momentos de leveza, a história guarda espaço para humor de situação: pequenas gafes sociais, conversas atravessadas, confissões em horários impróprios. Esses instantes não dissolvem tensões, apenas lembram que a vida segue entre reuniões, festas e silêncios. A cada passo, Julie aprende a calcular o custo de dizer sim e o custo de dizer não. Quando um evento incontornável redefine prioridades, ela muda o que pode: revê textos, considera novos caminhos, aceita cuidar e pedir cuidado. Não é redenção repentina, é ajuste observável de comportamento.
Ao encerrar o percurso, a obra não entrega lições prontas; apresenta o saldo de decisões que deixaram marcas em apartamentos, empregos e retratos. Julie permanece pessoa, não símbolo. Há trabalho por fazer, contas a pagar, amigos a preservar e escolhas a amadurecer. A última imagem confirma que toda decisão rearranja a mesa onde se vive e o ritmo do relógio na parede. Pela janela entra a luz de uma manhã comum; sobre a bancada, objetos de uso diário aguardam mão e horário; no rosto, um fôlego recém-recuperado antes do próximo compromisso.
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