Thelma Dickinson (Geena Davis) e Louise Sawyer (Susan Sarandon) querem apenas passar um fim de semana longe das obrigações no Arkansas. Uma precisa descansar do marido autoritário, a outra quer uma pausa no trabalho de garçonete. Em “Thelma & Louise”, lançado em 1991 e dirigido por Ridley Scott, o passeio pelas estradas americanas se transforma numa fuga depois que Louise mata um homem que tentou estuprar a amiga. Com a polícia à procura das duas, chegar ao México passa a ser uma possibilidade de escapar da prisão.
Antes de colocar as protagonistas sob perseguição, Scott apresenta as pequenas humilhações que tornam aquela viagem tão desejada. Thelma vive com Darryl (Christopher McDonald), um sujeito que parece considerar o casamento uma contratação de serviços domésticos. Ele dá ordens, reclama e toma decisões sem consultar a esposa. Ela, por sua vez, hesita até em avisar que pretende sair. Geena Davis dá graça e tristeza a essa insegurança. A vontade de se divertir existe, mas vem acompanhada do hábito de pedir licença.
Louise tem mais autonomia. Trabalha, dirige o próprio carro e assume a organização do passeio. Seu relacionamento com Jimmy (Michael Madsen), um músico frequentemente ausente, também tem problemas, embora ela disponha de uma liberdade que Thelma mal conhece. Susan Sarandon interpreta essa mulher com uma firmeza atravessada pelo cansaço. Louise já aprendeu a desconfiar de certas situações e acaba levando essa vigilância para o banco do motorista.
A parada que muda os planos
A diferença entre as amigas aparece quando Thelma insiste em parar num bar. Ela quer beber, dançar e aproveitar a noite. Louise preferiria seguir viagem, mas aceita. O que começa com a alegria de uma mulher pouco acostumada a se divertir termina numa agressão no estacionamento. Harlan (Timothy Carhart), o homem com quem Thelma dança, tenta estuprá-la. Louise aparece com uma arma e impede que ele continue.
O disparo que mata Harlan acontece depois de a agressão ter sido interrompida. Esse intervalo importa. A reação de Louise nasce da violência que acaba de testemunhar, mas acrescenta à situação um crime pelo qual terá de responder. Scott mantém o peso dos dois acontecimentos. Thelma foi atacada, e sua amiga matou um homem. O choque impede que qualquer uma delas saiba, naquele instante, o que fazer.
Thelma pensa em procurar a polícia. Louise rejeita a ideia porque acredita que ninguém dará crédito ao relato de uma mulher vista bebendo e dançando com o agressor. A conversa é uma das passagens mais dolorosas de “Thelma & Louise”. A dúvida deixa de ser apenas o que aconteceu naquele estacionamento. Elas também precisam considerar o que outras pessoas aceitarão como verdade. Louise prefere fugir, e a amiga aceita acompanhá-la.
O preço de continuar na estrada
O México surge como destino, mas atravessar o país exige dinheiro, combustível e ajuda. Louise procura Jimmy para conseguir recursos. Sarandon deixa aparecer a fragilidade de alguém que assumiu o comando sem ter condições de resolver tudo sozinha. Pedir auxílio ao namorado exige confiança num momento em que qualquer erro pode comprometer a fuga.
Jimmy também oferece uma diferença importante em relação a Darryl. Há afeto entre ele e Louise, mesmo que os dois tenham dificuldades para conversar sobre o relacionamento. Michael Madsen dá ao personagem uma mistura de carinho e desconforto que torna os encontros menos previsíveis. Darryl, em comparação, recebe um tratamento mais carregado. Sua arrogância rende situações engraçadas, mas às vezes o transforma num marido tão grosseiro que sobra pouco espaço para surpresa.
O roteiro de Callie Khouri ganha força quando deixa as amigas discordarem. Louise quer controlar os riscos, enquanto Thelma começa a gostar da possibilidade de fazer escolhas sem consultar o marido. As duas se preocupam uma com a outra, mas essa preocupação também provoca impaciência, cobranças e atritos. O carinho fica mais convincente porque precisa sobreviver a esses desentendimentos.
O encanto de um desconhecido
Durante o percurso, Thelma se interessa por J. D. (Brad Pitt), um jovem caroneiro. A atração tem a graça de uma descoberta tardia. Davis interpreta o desejo da personagem sem ridicularizar sua pouca experiência. Depois de tanto tempo num casamento sufocante, receber atenção desperta uma curiosidade que ela já não quer esconder.
Pitt dá ao rapaz um charme despreocupado, suficiente para despertar o entusiasmo de Thelma e a desconfiança de Louise. A presença dele acrescenta prazer e incerteza a uma viagem que já carrega problemas demais. Para quem tenta escapar da polícia, acolher um desconhecido exige uma confiança difícil de justificar. Para Thelma, porém, a oportunidade de escolher alguém por vontade própria tem um apelo que a cautela da amiga não consegue apagar.
É nessa convivência que as duas atrizes sustentam as melhores passagens. Sarandon expressa preocupação sem precisar verbalizar cada receio. Davis permite que a insegurança inicial ceda espaço a atitudes mais firmes. Nenhuma mudança acontece de maneira limpa. As personagens continuam vulneráveis, cometem erros e se irritam. Ainda assim, precisam contar uma com a outra para prosseguir.
A polícia está no rastro
Enquanto as amigas tentam chegar à fronteira, o investigador Hal Slocumb (Harvey Keitel) reúne informações e procura estabelecer contato. Ele demonstra disposição para ouvir o que aconteceu, mas continua sendo o policial encarregado de localizá-las. A atenção de Hal oferece uma possibilidade de conversa sem eliminar o risco de prisão.
Keitel dá ao personagem uma seriedade discreta. Sua presença impede que todos os homens recebam o mesmo retrato, embora isso pouco alivie a situação das fugitivas. Louise precisa decidir quanto pode confiar numa autoridade depois de ter descartado a possibilidade de buscar proteção. Cada contato pode abrir uma alternativa ou facilitar o trabalho de quem está à procura delas.
Scott alterna a investigação e a viagem para que o público acompanhe uma aproximação que as protagonistas desconhecem. As paisagens oferecem espaço, mas a distância percorrida nunca garante segurança. Há sempre outra despesa, uma parada necessária ou alguém capaz de reconhecê-las. O prazer de pegar a estrada passa a conviver com o medo de não conseguir continuar.
“Thelma & Louise” preserva essa mistura de aventura, afeto e decisões difíceis. O interesse do público pelas duas mulheres nasce também das conversas, das pequenas implicâncias e da alegria que ainda conseguem dividir sob pressão. Sarandon e Davis fazem acreditar numa amizade anterior à viagem, com intimidade suficiente para acolher fraquezas e cobrar responsabilidade. Quando uma perde a confiança no próximo passo, a outra precisa ajudá-la a voltar ao carro.

