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Drew Latham (Ben Affleck) tem dinheiro para passar o Natal em qualquer lugar, mas não consegue arranjar companhia para a data. Depois que a namorada, Missy Vangilder (Jennifer Morrison), termina o relacionamento, o publicitário de Chicago retorna à casa onde cresceu para tentar recuperar a alegria das festas da infância. O problema é que outra família mora ali. Em “Sobrevivendo ao Natal”, comédia de 2004 dirigida por Mike Mitchell, ele oferece aos proprietários uma pequena fortuna para ser recebido como filho até a noite de Natal. Para quem estava prestes a passar a celebração sozinho, alugar pais parece uma solução bastante razoável.

Tom Valco (James Gandolfini), o dono da residência, tem pouca paciência para estranhos e menos ainda para os caprichos daquele visitante. Sua resistência, porém, perde força diante da oferta de 250 mil dólares. Ele e a mulher, Christine (Catherine O’Hara), aceitam participar da encenação. Drew ganha o direito de se hospedar na antiga casa e exigir algumas tradições natalinas. Os anfitriões ficam com a tarefa de representar uma família afetuosa enquanto enfrentam problemas no próprio casamento.

Um filho que ninguém pediu

Drew chega com a disposição de quem comprou um pacote de férias e pretende aproveitar todos os serviços incluídos. Chama os anfitriões de pai e mãe, pede entusiasmo e quer envolvê-los nos preparativos da festa. Escolher a árvore e fazer compras passam a integrar uma programação que os Valco precisam cumprir. Ele deseja repetir as celebrações que guarda na memória, sem considerar que aquelas pessoas possuem outros hábitos e preocupações.

A melhor graça nasce da reação de Tom. Gandolfini transforma a obrigação de parecer acolhedor num esforço quase físico. O rosto fechado e a impaciência contrastam com a animação do hóspede, que recebe cada concessão como licença para fazer outro pedido. O ator consegue arrancar risadas apenas deixando transparecer o arrependimento de ter aceitado a proposta. O dinheiro é tentador, mas o expediente de pai adotivo parece não ter intervalo.

Affleck escolhe um registro expansivo, com sorrisos insistentes e uma energia infantil que combina com a falta de noção do personagem. Drew tem recursos para comprar companhia, mas pouca habilidade para perceber quando está incomodando. Essa diferença sustenta a comédia, embora também imponha um desgaste. Algumas brincadeiras se prolongam tanto que a vontade de rir cede lugar ao desejo de que alguém peça ao visitante para baixar a voz.

A filha se recusa a participar

A situação fica mais complicada quando Alicia Valco (Christina Applegate) chega à casa dos pais e descobre o acordo. Ela não aceita ganhar um irmão temporário apenas porque Tom considerou a proposta vantajosa. Sua resistência interrompe a fantasia de Drew, acostumado a tratar o pagamento como autorização para ocupar todos os espaços.

Applegate oferece um contraponto necessário ao entusiasmo de Affleck. Alicia questiona a presença do estranho e não demonstra qualquer obrigação de agradá-lo. Há um alívio em acompanhar alguém que pode dizer o que os demais precisam engolir para preservar o dinheiro. A personagem também devolve algum equilíbrio às conversas, sobretudo quando Drew insiste em agir com uma intimidade que ainda não conquistou.

O interesse amoroso dele por Alicia acrescenta um embaraço ao parentesco de aluguel. Para se aproximar dela, o publicitário precisa despertar uma simpatia que nenhum contrato garante. A passagem para o romance, contudo, pede uma delicadeza que a comédia nem sempre oferece. Depois de tanto investimento no comportamento inconveniente de Drew, nem toda tentativa de torná-lo encantador convence. Applegate ajuda a sustentar essa aproximação, mas o casal disputa espaço com os excessos do protagonista.

Os anfitriões também têm problemas

Christine participa da encenação sem deixar de carregar o desgaste da relação com Tom. Catherine O’Hara dá à personagem uma disposição diferente da rabugice do marido, criando boas oportunidades para o contraste entre os dois. Drew quer pais disponíveis e uma casa em festa. Recebe um casal que já tinha dificuldades para conviver antes de precisar acolher um adulto carente.

É nessa distância entre a encomenda e as pessoas contratadas que “Sobrevivendo ao Natal” rende mais. Os Valco não conseguem suspender suas insatisfações para atender ao cliente. O visitante pode determinar atividades, mas continua dependendo da boa vontade de quem preferiria estar fazendo outra coisa. Gandolfini e O’Hara dão peso a esse incômodo, sem precisar transformar cada reação numa grande brincadeira.

Mitchell, por sua vez, nem sempre confia no rendimento dessas interpretações. A insistência em situações exageradas enfraquece parte do que o elenco constrói com expressões, pausas e pequenas demonstrações de irritação. Quando chega a hora de pedir ternura ao espectador, o comportamento de Drew ainda pesa. Sua solidão desperta compreensão, mas não apaga o trabalho que ele dá aos anfitriões.

Uma festa cheia de exigências

A carência do publicitário é reconhecível. Ele quer ter um lugar à mesa, participar dos preparativos e sentir que alguém espera por sua chegada. O equívoco está em tratar esse acolhimento com a mesma lógica usada para contratar qualquer serviço. Affleck transmite essa mistura de aflição e egoísmo, embora a animação constante por vezes esconda a vulnerabilidade que tornaria Drew mais interessante.

“Sobrevivendo ao Natal” tem um um elenco capaz de extrair graça de uma convivência bastante desagradável. Falta ao diretor encurtar algumas brincadeiras e dar mais espaço às reações dos Valco. Ainda assim, Gandolfini e O’Hara tornam suportável até o visitante mais trabalhoso. Enquanto Drew acrescenta outra tradição à lista, os dois precisam respirar fundo e voltar ao papel de pais felizes.


Filme: Sobrevivendo ao Natal
Diretor: Mike Mitchell
Ano: 2004
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
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