Antes de deixar Paris, em 1940, Walter Benjamin entregou parte de seus manuscritos a Georges Bataille. Havia anos de trabalho naqueles papéis, e a invasão alemã tornara urgente uma providência bastante modesta para o tamanho do que estava em jogo. Era preciso encontrar onde guardá-los. Bataille, escritor e funcionário da Biblioteca Nacional, providenciou um esconderijo na instituição. Enquanto o autor tentava sair da França, uma parte de sua obra ficou ali.
Benjamin era um intelectual judeu alemão exilado desde 1933. A cidade em que procurara abrigo também se tornava perigosa, e a fuga exigia lidar com vistos, fronteiras e autoridades que podiam desfazer, de uma hora para outra, os planos mais trabalhosamente arranjados. Seus escritos seguiram caminhos diferentes. Hannah Arendt levaria a Theodor W. Adorno, nos Estados Unidos, um manuscrito das teses sobre a história. Outros documentos ficaram sob a guarda de Bataille.
Convém reparar na profissão do homem que os recebeu. Bataille conhecia a biblioteca por dentro. Havia ingressado na instituição em 1922, trabalhara no Gabinete de Medalhas e, a partir de 1930, no Departamento de Impressos. A documentação da Biblioteca Nacional da França registra sua atuação no serviço de periódicos e inclui, entre as atividades do período de guerra, a proteção dos manuscritos de Benjamin. Naquela ocasião, ser bibliotecário tinha uma utilidade que ultrapassava bastante o balcão de atendimento.
Para Benjamin, o lugar também era familiar. Durante o exílio parisiense, a biblioteca oferecera as condições de trabalho que suas moradias provisórias nem sempre permitiam. Ali havia acervo, silêncio e a possibilidade de passar o dia pesquisando. A estudiosa Catherine Coquio, ao examinar essa relação, recupera a importância quase doméstica que a instituição adquirira para ele. O edifício que abrigara o pesquisador acabaria abrigando seus papéis.
Entre os materiais confiados a Bataille estavam os do projeto que conhecemos como “Passagens”. Benjamin vinha trabalhando nele desde 1927, acumulando citações, observações e notas sobre a Paris do século 19. As galerias comerciais cobertas, suas vitrines e seus frequentadores forneciam uma entrada para investigar a vida moderna. Mercadorias, arquitetura, hábitos de consumo e literatura se encontravam numa pesquisa que continuava crescendo. O autor morreu sem lhe dar uma forma final.
Essa condição torna a história do salvamento especialmente delicada. Uma obra em preparação depende da conservação de materiais que, vistos de fora, podem parecer provisórios, redundantes ou difíceis de ordenar. Há diferença entre preservar um exemplar de um livro já publicado e manter reunidas as peças de um trabalho que ninguém, nem mesmo seu autor, chegou a concluir. Os leitores futuros de Benjamin dependeriam também dessa tarefa menos vistosa.
Segundo a reconstituição do Museu Nacional da Segunda Guerra Mundial, dos Estados Unidos, Bataille contou com a ajuda de dois bibliotecários para ocultar os documentos. A participação de colegas importa. A história costuma se concentrar no encontro entre dois escritores, mas o trabalho de preservação envolveu outras mãos. Em uma apresentação documental da BnF, uma carta de Bataille a Jean Bruno, datada de 25 de agosto de 1945, aparece vinculada à proteção desses manuscritos.
Depois da guerra, materiais preservados chegaram a Adorno. Seguiram-se o trabalho de organização e a preparação editorial de uma obra que Benjamin já não poderia acompanhar. “Passagens” teve sua edição alemã publicada em 1982, sob a responsabilidade de Rolf Tiedemann. Entre os papéis reunidos em Paris e o volume oferecido aos leitores havia, portanto, décadas de distância e várias pessoas encarregadas de tornar possível essa passagem.
Nem tudo reapareceu ao mesmo tempo. Em 1981, Giorgio Agamben encontrou na Biblioteca Nacional outro conjunto de documentos, com materiais relacionados a “Passagens” e ao trabalho de Benjamin sobre Baudelaire. A descoberta acrescentou elementos para compreender a pesquisa. A data se refere a esse novo conjunto, não à recuperação de todos os papéis escondidos durante a guerra.
O que reapareceu em 1981?
Um conjunto adicional de documentos, com notas ligadas a “Passagens” e ao estudo de Baudelaire. Outros materiais já haviam sido recuperados e encaminhados a Adorno depois da guerra.
Benjamin havia morrido em setembro de 1940, em Portbou, na Espanha, durante sua tentativa de escapar da perseguição nazista. O destino dos manuscritos não corrige o desfecho de sua fuga. Permite, porém, acompanhar o que aconteceu com uma parte do trabalho que ele deixou nas mãos de outras pessoas.
No Brasil, “Passagens” ganhou sua primeira tradução em português em 2006, numa parceria entre a Editora UFMG e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Irene Aron traduziu os textos em alemão; Cleonice Paes Barreto Mourão, os escritos em francês. O livro chegou com mais de mil páginas. Antes de haver um volume para abrir, alguém precisou encontrar um lugar onde aqueles papéis pudessem ficar.

