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Bula AchadosViagem, percepção e escrita

Na Rua Direita, no Rio de Janeiro, os carregadores cantavam para acertar o passo sob o peso das mercadorias. Vendedoras de frutas anunciavam o que traziam. Estrangeiros conversavam, pessoas escravizadas aguardavam ser contratadas para serviços, pedestres protestavam quando um fardo os empurrava para fora da calçada. James Holman registrou essa confusão em seu relato de viagem. A cidade chegava aos ouvidos do inglês, que havia perdido a visão aos 25 anos.

Holman dera entrada na Marinha britânica ainda menino. Queria conhecer terras distantes, e a profissão parecia oferecer um caminho. Uma doença interrompeu a carreira e o deixou cego. Na abertura de “A Voyage Round the World”, ele conta que, durante algum tempo, julgou impossível voltar a viajar sozinho para fora de seu país. O desejo reapareceu à medida que recuperava as forças. Sua primeira longa viagem pela Europa ocorreu entre 1819 e 1821.

A tentativa seguinte de dar a volta ao mundo acabou na Rússia. Holman avançou pela Sibéria, despertou suspeitas das autoridades e foi obrigado a deixar o país. O episódio poderia ter fornecido assunto suficiente para uma aposentadoria movimentada. Ele preferiu organizar outra partida. Entre 1827 e 1832, percorreu África, América, Ásia e Australásia numa viagem de circunavegação que renderia quatro volumes, publicados em 1834 e 1835.

O Brasil entrou nesse percurso com a chegada ao Rio e uma incursão pelo interior, em direção às minas de Gongo Soco, em Minas Gerais. Holman anotou condições de hospedagem, conversas, dificuldades dos caminhos e hábitos que o intrigavam. Havia também as pequenas providências que ocupam qualquer viajante. Antes de sair da cidade, precisou comprar roupa pronta, porque, segundo sua reclamação, os alfaiates ingleses instalados ali não se dispunham a atendê-lo com a urgência necessária.

É fácil imaginar o espanto de quem o encontrava. Em Valença, durante uma parada para o café da manhã, sua barba comprida e a cegueira atraíram uma multidão de curiosos. Queriam saber como viajava, por que viajava, se era padre ou missionário. As perguntas se acumularam a ponto de o grupo procurar abrigo atrás de portas fechadas. O homem que saíra para conhecer os outros acabava, com frequência, transformado no assunto da visita.

Ele também precisava explicar aos leitores como produzia seus livros. No primeiro volume da volta ao mundo, descreve um diário irregular, preenchido quando havia oportunidade. Às vezes, as anotações ficavam duas semanas atrasadas. Reunia ainda apontamentos separados sobre determinados temas e descrições de objetos. Sempre que possível, ditava a alguém. Na falta de uma pessoa disponível, recorria a um aparelho de escrita chamado Nocto via Polygraph, invenção de Wedgwood.

O próprio Holman dizia usar pouco o equipamento, pois achava o processo mais demorado que o ditado. A explicação tem uma utilidade particular para quem lê sua história hoje. Por trás dos livros estavam memória, instrumentos, trabalho de organização e pessoas dispostas a colaborar. As notas eram retomadas e desenvolvidas depois, na Inglaterra. A viagem continuava na mesa de trabalho.

IIIIIIIV
Uma viagem, quatro volumes
1827–1832O percurso da volta ao mundo.
1834–1835A publicação de “A Voyage Round the World”.
Como Holman registrava a viagem?

Ele reunia notas e descrições, ditava quando encontrava alguém disponível e também possuía um aparelho de escrita. Os apontamentos eram desenvolvidos depois, na Inglaterra.

Ouvir, tocar, perguntar e comparar informações compunham seus recursos de conhecimento. No artigo que dedicou a Holman na “Revista de História”, o historiador Amilcar Torrão Filho examina justamente a confiança concedida ao olhar na literatura de viagens. Um autor que enxergava também dependia de moradores, intérpretes, leituras anteriores e relatos de terceiros. A presença física num lugar nunca foi garantia de presenciar tudo o que se escrevia sobre ele.

Essa questão aparece nas páginas do próprio inglês. Ao narrar a entrada no porto do Rio, Holman emprega o vocabulário da paisagem vista, descrevendo montanhas, céu e atmosfera. Pouco depois, acompanha o movimento das ruas pelo barulho. Os registros convivem no livro, que reúne experiência pessoal e informações recebidas. Tomá-los todos como percepção direta seria atribuir ao autor uma capacidade que ele não precisava possuir para escrever.

Também convém ler seus juízos com atenção. A curiosidade de Holman não o livrou dos preconceitos de um europeu de sua época. Ao falar dos moradores de Valença, tratou a experiência deles como limitada e fez da própria surpresa uma medida para avaliá-los. O interesse do relato inclui essas diferenças de posição entre quem passava, quem recebia e quem acabava descrito para leitores do outro lado do oceano.

Entre as cenas brasileiras, há uma observação pequena, recolhida no caminho para o interior. Seu companheiro, o capitão Lyon, chamou-lhe a atenção para o canto de um pássaro conhecido como ferreirinho. Holman registrou a semelhança com uma martelada numa bigorna, terminada por um assobio agudo. O pássaro entrou no livro pelo som; o nome chegou pela conversa. Quase dois séculos depois, a anotação ainda permite ao leitor acompanhar aquele trecho da viagem.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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