Robert “Bobby” Trench (Denzel Washington) e Michael “Stig” Stigman (Mark Wahlberg) trabalham juntos na região da fronteira entre os Estados Unidos e o México, mas escondem um detalhe essencial um do outro. Ambos são agentes infiltrados, cada qual a serviço de uma instituição diferente. Em “Dose Dupla”, de 2013, dirigido por Baltasar Kormákur, a tentativa de investigar um traficante leva os parceiros a assaltar um banco. O plano desanda quando eles retiram do cofre muito mais dinheiro do que esperavam e passam a ser perseguidos por gente interessada em recuperar a quantia. A partir desse desastre, precisam confiar no homem que passaram meses enganando.
Bobby pertence à DEA, agência americana de combate às drogas, enquanto Stig atua na inteligência naval. Cada um acredita estar trabalhando ao lado de um criminoso e pretende aproveitar essa proximidade para cumprir sua missão. Há, portanto, uma boa razão para tantas perguntas atravessadas e informações pela metade. Os dois compartilham os riscos do trabalho, mas prestam contas a superiores diferentes. Basta uma ordem incompatível com a do colega para comprometer a operação inteira.
Um assalto lucrativo demais
O alvo da investigação é Papi Greco (Edward James Olmos), traficante mexicano que desconfia da dupla e dificulta o acesso aos seus negócios. Sem conseguir avançar por esse caminho, Bobby e Stig apostam no roubo de um banco onde acreditam estar guardado parte do dinheiro do criminoso. Para Bobby, a quantia poderia ajudar a incriminar Papi. Stig segue suas próprias instruções, sem revelar ao parceiro quem está por trás delas.
O problema é que o cofre guarda uma fortuna muito superior à prevista. Em circunstâncias menos complicadas, seria uma excelente notícia para dois assaltantes. Para agentes que precisam justificar cada etapa de uma missão clandestina, significa que alguma informação importante ficou de fora. Eles conseguem executar o roubo, mas desconhecem a origem de boa parte do que levaram. Quem se considera dono daquele dinheiro, evidentemente, tem interesse em procurá-los.
Kormákur aproveita bem essa contradição. O sucesso do golpe piora a situação dos protagonistas, que passam de investigadores disfarçados a homens caçados. O dinheiro também aumenta a distância entre o que cada um sabia e aquilo em que acabou envolvido. A descoberta das identidades profissionais ajuda a esclarecer o equívoco, mas está longe de resolver a convivência. Saber que o sujeito ao lado também tem um distintivo oferece pouco conforto depois de tanta mentira.
Parceiros por falta de opção
Washington e Wahlberg sustentam essa relação com temperamentos que se complementam. Bobby fala menos, observa mais e recebe as provocações do colega com uma impaciência bastante convincente. Stig parece incapaz de deixar uma conversa terminar sem acrescentar alguma coisa. Sua insistência pode ser inconveniente para quem tenta pensar sob ameaça, mas dá graça aos intervalos entre perseguições e tiroteios.
Wahlberg empresta ao personagem uma necessidade quase infantil de obter reconhecimento do parceiro. Washington responde com olhares, pausas e comentários secos, sem transformar Bobby em um homem inteiramente imune ao absurdo da situação. A diversão nasce desse atrito. Mesmo quando precisam colaborar, os dois continuam disputando quem tem mais razão para desconfiar.
Essa química faz diferença quando o roteiro acumula interesses, ordens e possíveis traições. A relação entre os protagonistas permanece fácil de acompanhar, embora nem todos os envolvidos na disputa pelo dinheiro recebam a mesma atenção. O espectador sabe o que Bobby e Stig precisam fazer para sobreviver, mas algumas mudanças nos planos chegam depressa demais. O prazer de acompanhar os atores compensa parte dessa pressa, sem eliminar a impressão de que certas complicações poderiam ter sido mais bem desenvolvidas.
Ajuda com ressalvas
Sem a proteção que esperavam das instituições para as quais trabalham, os agentes precisam escolher a quem recorrer. Bobby procura Deb (Paula Patton), sua colega na DEA, com quem também mantém um envolvimento amoroso. A proximidade acrescenta uma dificuldade à busca por auxílio. Ele precisa de apoio profissional, mas leva para a conversa expectativas e ressentimentos que pertencem à vida íntima.
Patton tem presença, embora o roteiro ofereça menos espaço à sua personagem do que à dupla central. Deb participa de decisões importantes, mas sua relação com Bobby poderia ter mais espessura. Faltam oportunidades para que ela exista além das necessidades dele e das surpresas reservadas pela trama. Quando os dois estão juntos, há material para um vínculo mais interessante do que aquele que os diálogos conseguem desenvolver.
A limitação fica evidente porque Washington recebe tempo para construir a reserva de Bobby em pequenos gestos. O agente pode esconder informações e ainda assim despertar curiosidade. Deb depende mais daquilo que o roteiro decide revelar sobre ela. Essa diferença enfraquece a dimensão afetiva de uma história que encontra sua melhor companhia nas discussões entre os parceiros.
Um perseguidor sem paciência
Earl (Bill Paxton), um dos homens interessados em recuperar a fortuna, acrescenta uma ameaça menos bem-humorada à fuga. Paxton trata a brutalidade do personagem com uma calma desagradável. Enquanto Bobby e Stig discutem e fazem piadas, ele cobra o dinheiro com disposição para ferir quem estiver no caminho. Sua presença preserva o perigo mesmo quando os protagonistas parecem confortáveis demais em meio à confusão.
Kormákur alterna essa violência com a desenvoltura dos atores, nem sempre mantendo o mesmo equilíbrio. Há passagens em que as agressões pesam mais do que a leveza das conversas faria esperar. Ainda assim, o diretor mantém o interesse na sobrevivência dos dois agentes, sobretudo quando uma tentativa de conseguir ajuda produz mais um motivo para fugir.
Washington e Wahlberg precisam resolver um problema juntos, contrariados com a dependência que criaram. O roteiro nem sempre dá a mesma atenção às pessoas que os cercam, mas os protagonistas têm personalidade suficiente para sustentar a aventura. Bobby quer recuperar o controle da missão. Stig quer sair vivo e ainda obter alguma consideração do colega. Entre uma cobrança e outra, precisam parar de discutir para proteger as costas um do outro.

