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Beau Wassermann (Joaquin Phoenix) tem uma viagem marcada para visitar a mãe, Mona (Patti LuPone), mas sair do apartamento já exige um esforço monumental. Solitário e atormentado pela ansiedade, ele vive numa cidade americana onde as ruas parecem oferecer todos os perigos possíveis, às vezes ao mesmo tempo. Em “Beau Tem Medo”, de 2023, o diretor e roteirista Ari Aster transforma esse compromisso familiar numa sucessão de contratempos que impedem o protagonista de chegar ao destino. O desejo de agradar à mãe permanece, embora cada tentativa de partir termine com um novo problema.

A história começa perto desse homem de meia-idade que frequenta um terapeuta e toma remédios, mas não consegue atravessar o dia sem esperar pelo pior. Phoenix dá ao personagem uma expressão de desamparo que chega antes das palavras. Os ombros caídos, a voz baixa e a dificuldade de sustentar uma objeção sugerem alguém acostumado a ceder. Quando precisa resolver alguma coisa, Beau já parece preocupado com o pedido de desculpas que terá de fazer depois.

O perigo do outro lado da porta

O bairro onde ele mora materializa seus temores numa escala absurda. Há violência, gritaria e uma sensação permanente de abandono. Aster apresenta esse ambiente sem oferecer uma distância confortável entre aquilo que acontece e a maneira pela qual o morador percebe os acontecimentos. O espectador fica perto demais de sua aflição para simplesmente descartar tudo como paranoia.

Uma saída para comprar água, necessária para tomar a medicação, ganha a urgência de uma operação de resgate. A tarefa é banal, mas Beau precisa avaliar a rua, deixar o apartamento e torcer para conseguir voltar. A graça nasce desse descompasso entre uma necessidade pequena e a quantidade de desastres que ela pode provocar. Comprar uma garrafa de água deveria exigir dinheiro e alguns minutos. Na vida desse sujeito, exige uma disposição que ele mal consegue reunir.

Phoenix sustenta o sofrimento mesmo nas situações mais ridículas. Seu personagem nunca parece saber que está numa comédia, o que torna o riso um pouco desconfortável. Aster nos deixa rir da confusão e, logo depois, prolonga a aflição até retirar parte do prazer. É uma escolha que rende passagens inventivas, mas também anuncia o desgaste de acompanhar alguém que quase nunca consegue concluir uma tarefa.

Uma ligação que aumenta a culpa

Quando os contratempos ameaçam a viagem, Beau precisa telefonar para Mona e explicar o atraso. A conversa acrescenta um peso familiar aos perigos da rua. Ele quer assegurar que pretende visitá-la, mas tem dificuldade para relatar o que aconteceu sem parecer culpado por tudo. Antes de defender a própria necessidade, procura adivinhar a decepção do outro lado da linha.

Patti LuPone dá à mãe uma autoridade que alcança o filho mesmo à distância. A relação entre os dois ajuda a perceber por que um homem adulto tem tanto receio de contrariar alguém. Para Beau, comunicar um problema exige também provar afeto. O atraso deixa de ser apenas uma dificuldade de transporte e passa a ameaçar a imagem de bom filho que ele tenta preservar.

Aster é mais convincente quando permite que esse vínculo apareça nas hesitações de Phoenix. Uma pausa antes de responder ou uma justificativa desnecessária dizem bastante sobre a intimidade entre mãe e filho. Há tristeza nessa disposição de assumir responsabilidades que talvez nem sejam suas. Quanto mais ele tenta demonstrar boa vontade, mais difícil fica dizer o que precisa.

A hospitalidade também tem regras

Depois de um acidente, Beau recebe cuidados de Grace (Amy Ryan) e Roger (Nathan Lane), um casal que o acolhe em sua casa. O ambiente doméstico oferece um contraste com a hostilidade do bairro. Há uma cama, atenção e a promessa de ajuda para seguir viagem. Aceitar parece sensato para alguém ferido e assustado, mas a recuperação passa a depender das decisões dos anfitriões.

Amy Ryan torna Grace acolhedora sem apagar a firmeza com que ela administra a presença do visitante. Nathan Lane, por sua vez, dá a Roger uma tranquilidade quase ofensiva diante da urgência alheia. Ele fala com a segurança de quem tem uma solução para tudo, desde que ninguém insista muito em saber quando ela será providenciada. Beau quer partir, mas não tem facilidade para cobrar um favor.

A permanência também incomoda Toni (Kylie Rogers), a filha adolescente do casal, que recebe o hóspede com hostilidade. O homem que chegou precisando de repouso passa a ocupar um espaço atravessado por ressentimentos que desconhece. Sua fragilidade não lhe garante compreensão. Dentro daquela casa, ele precisa lidar com pessoas que têm expectativas próprias sobre sua presença.

Um filho sempre em dívida

É nessa passagem que “Beau Tem Medo” combina melhor a comédia cruel com o drama familiar. O protagonista recebe ajuda, mas não consegue estabelecer as condições de que necessita para aceitá-la. A gratidão o mantém calado por mais tempo do que deveria. Phoenix consegue tornar essa passividade dolorosa sem pedir que o público considere todas as atitudes do personagem razoáveis.

Aster, entretanto, nem sempre sabe quando encerrar uma situação. Ao longo de quase três horas, acumula desvios e prolonga impasses que já produziram seu efeito. Em alguns trechos, o excesso favorece a sensação de aprisionamento. Em outros, apenas repete a informação de que Beau está assustado e não consegue agir. O protagonista muda de ambiente, mas o espectador continua esperando por uma iniciativa que demora a chegar.

Ainda assim, Phoenix preserva algo reconhecível em meio aos acontecimentos mais extravagantes. Beau quer visitar a mãe, cumprir o que prometeu e não decepcionar ninguém. São desejos modestos, aos quais ele dedica uma energia exaustiva. Ao tentar atender a todos, entrega a desconhecidos o controle sobre seus horários e suas escolhas. A viagem permanece pendente, enquanto ele pede licença, aceita mais uma espera e adia outra vez a partida.


Filme: Beau tem Medo
Diretor: Ari Aster
Ano: 2023
Gênero: Comédia/Drama/Terror
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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