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Na Irlanda de 1892, Joseph Donnelly (Tom Cruise) trabalha em terras que nunca poderá chamar de suas. Após a morte do pai, ele responsabiliza o proprietário pela miséria da família e tenta se vingar. A tentativa fracassa, mas aproxima o rapaz de Shannon Christie (Nicole Kidman), filha do homem que ele pretendia matar. Insatisfeita com as regras da própria casa, ela planeja partir para os Estados Unidos e reivindicar terras em Oklahoma. Joseph aceita acompanhá-la porque também deseja uma propriedade. Esse encontro entre duas pessoas separadas pelo dinheiro dá início a “Um Sonho Distante”, aventura romântica de 1992 dirigida por Ron Howard.

A viagem promete atender aos desejos dos dois, embora cada um tenha uma razão diferente para partir. Joseph quer deixar de trabalhar sob as ordens de um proprietário. Shannon deseja escolher o próprio futuro, sem a interferência dos pais e de Stephen Chase (Thomas Gibson), administrador das terras da família e seu pretendente. Para ela, a América oferece a possibilidade de viver de outra maneira. Para ele, representa a chance de conseguir algo que sempre esteve fora de seu alcance.

Uma fuga cheia de diferenças

Antes de atravessarem o Atlântico, os companheiros de viagem já precisam lidar com uma dificuldade bastante íntima. Shannon quer a ajuda de Joseph, mas está acostumada a dar ordens. Ele precisa dos recursos dela para embarcar e se ofende quando recebe uma proposta para acompanhá-la na condição de criado. A jovem deseja abandonar os costumes da família, desde que alguns de seus privilégios possam ir na bagagem.

Nicole Kidman aproveita bem essa contradição. Sua Shannon tem coragem para fugir, mas pouca experiência para sobreviver sem proteção. A atriz preserva certa arrogância na personagem mesmo quando ela está vulnerável. Isso torna a convivência com Joseph mais interessante, pois o rapaz tampouco é um modelo de paciência. Tom Cruise o interpreta com orgulho, disposição para brigar e uma suscetibilidade que transforma qualquer provocação em assunto sério.

Stephen acrescenta uma ameaça a essa parceria. Seu trabalho o coloca acima dos arrendatários, enquanto a proximidade com os Christie favorece suas pretensões de casamento. Joseph tem razões para temê-lo, e Shannon sabe que permanecer na Irlanda significa continuar ao alcance de sua influência. Thomas Gibson dá ao personagem uma superioridade antipática, suficiente para tornar a fuga compreensível. Howard desenha essas diferenças com traços fortes e deixa pouco espaço para dúvidas sobre quem exerce o poder.

Boston fica no caminho

A chegada aos Estados Unidos interrompe a fantasia de uma vida nova sem maiores dificuldades. Oklahoma está longe de Boston, onde os dois desembarcam, e alcançar as terras exige dinheiro. Antes de pensar na propriedade, precisam pagar por comida e alojamento. O oceano ficou para trás, mas a parte mais cansativa da viagem ainda nem começou.

Essa passagem pela cidade dá substância ao romance. Shannon perde a proteção que o sobrenome lhe oferecia, enquanto Joseph descobre oportunidades ligadas à sua força física. Ele começa a lutar boxe para se sustentar e guardar algum dinheiro. As vitórias oferecem renda e uma atenção que o rapaz desconhecia. Cruise se sai bem nesse misto de esforço, entusiasmo e vaidade. Joseph gosta de ganhar, mas também gosta bastante de ser visto ganhando.

Howard dedica tempo a essa adaptação porque ela muda a relação entre os protagonistas. O jovem que dependia da passagem paga por Shannon passa a contribuir para a sobrevivência dos dois. Ela, por sua vez, precisa procurar trabalho e enfrentar condições muito distantes do conforto doméstico. A atração cresce entre despesas, cansaço e discussões. O afeto tem de caber numa rotina que exige mais do que boas intenções.

Orgulho também ocupa espaço

Dividir alojamento obriga Joseph e Shannon a conviver com hábitos que antes poderiam desprezar à distância. Ela tenta conservar seus modos. Ele resiste a ser tratado como empregado. Ambos sentem atração, mas preferem discutir a admitir que a presença do outro começa a fazer falta. As implicâncias têm graça porque nascem de diferenças já estabelecidas, sem depender apenas de situações constrangedoras.

A parceria entre Cruise e Kidman sustenta boa parte do interesse de “Um Sonho Distante”. Os atores dão energia às brigas e alguma delicadeza às aproximações. Shannon pode ser autoritária sem perder a curiosidade pelo rapaz. Joseph pode agir com imaturidade e ainda despertar carinho. Quando Howard permite que os dois conversem, se irritem e dividam pequenas dificuldades, o romance ganha uma proximidade que os grandes acontecimentos nem sempre conseguem oferecer.

Há também simplificações. Algumas mudanças de atitude chegam depressa, e certas coincidências ajudam os personagens a atravessar dificuldades que pareciam maiores. O diretor aposta na simpatia do casal para que o público aceite esses atalhos. A aposta costuma render quando Kidman e Cruise estão juntos, embora a insistência nas provocações por vezes alongue situações cujo sentido já estava estabelecido.

Uma casa ainda por conquistar

A renda do boxe oferece algum alívio, mas depende do desempenho de Joseph e dos homens que organizam os combates. O rapaz começa a conhecer uma forma de dependência diferente daquela que deixou na Irlanda. Seu esforço pode gerar dinheiro, porém não lhe garante estabilidade. Shannon também descobre que desejar independência é muito mais agradável do que procurar emprego sem ter a quem recorrer.

O melhor de “Um Sonho Distante” está nesse intervalo entre a partida e a conquista imaginada. Howard transforma a espera por Oklahoma numa convivência em que os dois precisam abandonar certezas sobre dinheiro, trabalho e casamento. A propriedade continua sendo o objetivo, mas chegar até ela exige reconhecer necessidades que nenhum dos dois previa ao embarcar.

Joseph quer um pedaço de chão onde possa viver sem pedir licença. Shannon quer participar dessa escolha sem voltar a obedecer às decisões da família. O romance se torna convincente quando esses desejos deixam de parecer tão distantes um do outro. Antes de procurar uma casa juntos, porém, os dois ainda precisam pagar pelo quarto em Boston e conseguir os meios para seguir viagem.


Filme: Um Sonho Distante
Diretor: Ron Howard
Ano: 1992
Gênero: Aventura/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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