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Em Nova York, em 1970, um agente capaz de viajar no tempo trabalha disfarçado de barman enquanto tenta capturar um terrorista que escapou de suas missões anteriores. Perto da aposentadoria, ele precisa impedir novos atentados e encontrar alguém que possa ingressar na organização para a qual trabalha. Essa dupla tarefa aproxima o agente, interpretado por Ethan Hawke, de John (Sarah Snook), um escritor que entra no bar carregando uma história de abandono. Dirigido pelos irmãos Michael e Peter Spierig, “O Predestinado”, de 2014, transforma essa conversa numa investigação em que conhecer o passado de alguém pode ser tão arriscado quanto tentar modificá-lo.

Antes do encontro no balcão, o agente sofre queimaduras graves ao tentar desarmar uma bomba em 1975. Ele consegue retornar à sede de sua organização, onde passa por uma reconstrução facial. O tratamento lhe dá outra aparência, mas não encerra a perseguição ao criminoso responsável pelo ataque. Mesmo advertido sobre o desgaste psicológico provocado pelas viagens temporais, insiste em continuar. Sua disposição tem algo de dedicação profissional e algo de incapacidade de abandonar uma tarefa que já lhe custou demais.

Uma conversa que muda a missão

John escreve relatos confessionais para revistas femininas sob o pseudônimo de Mãe Solteira. O nome desperta a curiosidade do barman, que pergunta de onde vem sua familiaridade com aquelas experiências. O cliente aceita contar a própria vida, convencido de que tem uma história difícil de superar. A conversa começa com a informalidade de um encontro entre desconhecidos, embora Hawke escute com uma atenção que sugere outros interesses.

Os Spierig dedicam boa parte da primeira metade a esse relato. A escolha pode surpreender quem chegou esperando perseguições entre épocas, mas dá peso às decisões posteriores de John. Antes de acompanhá-lo numa viagem, conhecemos as perdas que o tornam disposto a embarcar. O suspense nasce também dessa diferença entre os dois homens. Um revela episódios dolorosos da própria vida. O outro permanece protegido pelo avental e por algumas perguntas bem escolhidas.

Jane procura uma saída

John conta que foi criado como menina e recebeu o nome de Jane. Abandonada ainda bebê num orfanato de Cleveland, em 1945, Jane cresce sem conhecer os pais e enfrenta dificuldades para criar vínculos. Seu desempenho nos estudos e nas atividades físicas chama atenção, mas não lhe garante acolhimento. Snook interpreta essa juventude com uma aspereza que revela tanto orgulho quanto necessidade de proteção. Jane aprendeu a responder antes que alguém tenha a chance de humilhá-la.

A possibilidade de entrar num programa ligado a viagens espaciais oferece uma alternativa à vida que conhece. Durante a seleção, Robertson (Noah Taylor) identifica qualidades que poderiam assegurar seu ingresso, mas uma avaliação médica interrompe a candidatura. A rejeição pesa porque aquele trabalho prometia independência e pertencimento. Robertson conserva informações que Jane desconhece, e Taylor dá ao personagem uma cordialidade administrativa que nunca chega a transmitir segurança. Ele pode abrir uma porta, mas também decide quanto a candidata saberá antes de atravessá-la.

Depois dessa frustração, Jane conhece um homem e se apaixona. A relação permite uma confiança que até então parecia fora de alcance. Quando ele desaparece, ela precisa enfrentar sozinha uma gravidez. Os diretores dão espaço a esse abandono porque é dele que nasce o ressentimento levado por John ao bar. O desejo de reencontrar aquele homem tem uma origem bastante concreta, muito anterior a qualquer discussão sobre paradoxos temporais.

Um corpo submetido a decisões alheias

Durante o parto, os médicos descobrem que Jane é uma pessoa intersexo. Complicações exigem intervenções que alteram seu corpo, e decisões médicas são tomadas sem que ela tenha pleno controle sobre o que está acontecendo. O sequestro da filha no hospital acrescenta outra perda a esse período. Ao passar a viver como John, ele precisa encontrar trabalho e sustento enquanto convive com experiências sobre as quais quase nunca pôde escolher.

Sarah Snook é o principal motivo para essa parte da história funcionar. Ela preserva reações, expressões e maneiras de se defender que ligam Jane a John. A amargura do escritor tem raízes na solidão da jovem, assim como sua desconfiança nasce das promessas que outras pessoas fizeram. Há, porém, um incômodo na maneira como os irmãos Spierig reservam certas informações sobre o corpo do personagem para alimentar o mistério. A atuação oferece uma continuidade humana que o roteiro, ocupado em preparar surpresas, por vezes ameaça deixar em segundo plano.

A promessa de voltar ao passado

Depois de ouvir o relato, o barman oferece a John uma oportunidade extraordinária. Ele pode levá-lo ao passado para procurar o homem que o abandonou. Em troca, espera recrutá-lo para a organização responsável pelas viagens temporais. John aceita porque a proposta alcança uma ferida que permanece aberta. O agente dispõe do transporte, das datas e das informações. Seu acompanhante tem o desejo de obter uma reparação e poucas condições de avaliar o preço da oferta.

Hawke equilibra essa desigualdade sem transformar o recrutador numa figura ostensivamente ameaçadora. Ele fala com calma, escuta e oferece ajuda. Essa postura torna mais desconfortável perceber quanto John depende de sua palavra. Quando os dois deixam o bar, cada orientação passa a exigir uma confiança que a conversa anterior ainda não seria suficiente para justificar.

“O Predestinado” deixa a viagem no tempo ligada a essa vulnerabilidade. As mudanças de época importam porque permitem a John procurar alguém, revisitar uma perda e agir sobre acontecimentos que julgava encerrados. Os Spierig nem sempre resistem à vontade de organizar cada informação para a próxima surpresa, e alguns diálogos pesam sob essa obrigação. Snook, entretanto, mantém o interesse na pessoa que precisa tomar aquelas decisões. Quando John aceita partir, ele entrega ao desconhecido do balcão acesso à parte mais dolorosa de sua vida.


Filme: O Predestinado
Diretor: Michael Spierig e Peter Spierig
Ano: 2014
Gênero: Ação/Drama/Fantasia/Ficção Científica/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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