Na França ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, uma jovem judia vê a chance de se vingar quando seu cinema é escolhido para receber uma estreia com autoridades do Terceiro Reich. Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent) sobreviveu ao massacre da família e vive em Paris sob outra identidade. Enquanto ela prepara seu plano, o tenente americano Aldo Raine (Brad Pitt) comanda soldados judeus em ataques contra militares alemães. Esses caminhos se aproximam em “Bastardos Inglórios” (2009), de Quentin Tarantino, sem que seus participantes saibam exatamente o que os outros pretendem fazer.
Tarantino distribui a história entre pessoas que precisam esconder quem são e homens acostumados a decidir quem merece continuar vivo. Entre eles está o coronel Hans Landa (Christoph Waltz), responsável pela perseguição que destruiu a família de Shosanna. Educado, paciente e muito satisfeito com a própria inteligência, ele transforma qualquer conversa numa situação da qual seu interlocutor gostaria de escapar. A presença desse oficial torna perigoso até um encontro aparentemente casual.
A educação de um homem cruel
Na abertura, Landa visita a propriedade do fazendeiro Perrier LaPadite (Denis Ménochet) em busca de judeus escondidos. O anfitrião precisa proteger os refugiados sem despertar suspeitas, enquanto o visitante dispõe de soldados e autoridade para prolongar o interrogatório. A diferença entre os dois aparece na liberdade de cada um. O coronel pode fazer perguntas, mudar de assunto e saborear a conversa. Ao fazendeiro resta escolher cuidadosamente cada palavra.
Waltz faz dessa cortesia uma forma particularmente desagradável de crueldade. Seu personagem observa as reações alheias com o prazer de quem acredita ter todas as vantagens. Ménochet, por sua vez, concentra no rosto o esforço de suportar a visita. Tarantino deixa o encontro se alongar, obrigando o público a acompanhar uma espera que pesa sobretudo sobre quem está escondido. Quando Shosanna consegue fugir, sua sobrevivência depende de desaparecer do alcance daquele homem.
Anos depois, em Paris, Mélanie Laurent preserva esse passado na maneira reservada de interpretar a personagem. Shosanna trabalha, administra sua sala de exibição e procura manter distância dos ocupantes. Sua firmeza exige esforço. Ela precisa conviver com uniformes, ordens e visitantes ligados ao regime que assassinou seus familiares, sem revelar o que essa proximidade lhe custa.
Soldados com pouca vocação para sutilezas
Aldo Raine enfrenta os alemães por outro caminho. Seu destacamento persegue soldados nazistas e usa a brutalidade para espalhar medo entre as tropas inimigas. Os relatos de sobreviventes ajudam a construir a reputação dos Bastardos, tornando o grupo conhecido antes mesmo de sua chegada. Entre os combatentes está Donny Donowitz (Eli Roth), cuja participação nas represálias reforça o pavor dos prisioneiros.
Brad Pitt interpreta Raine com uma autoconfiança que quase dispensa a aprovação de qualquer pessoa presente. O comandante fala de suas ordens com desenvoltura, satisfeito com os métodos e pouco interessado em delicadezas. Há graça nessa segurança grosseira, embora Tarantino mantenha a violência perto o suficiente para tornar o riso desconfortável. Raine pode ser divertido, mas ninguém gostaria de depender de sua boa vontade durante um interrogatório.
A atuação tem um exagero calculado que combina com esse militar. Em alguns momentos, porém, o interesse pelos homens do destacamento fica atrás daquele despertado por Shosanna e Landa. A sobrevivente tem uma identidade a proteger. O coronel pode descobri-la. Cada aproximação entre os dois ameaça uma vida construída depois da fuga, enquanto parte dos combatentes recebe menos espaço para existir além de suas habilidades e de sua disposição para matar.
Um admirador que não aceita distância
A rotina de Shosanna muda quando Fredrick Zoller (Daniel Brühl), soldado celebrado pelos alemães, passa a frequentar seu caminho. Transformado em estrela de uma produção de propaganda sobre seus feitos militares, ele se interessa pela jovem e insiste numa aproximação que ela não deseja. Zoller está acostumado à admiração pública. A resistência daquela mulher fere uma vaidade que sua simpatia inicial mal consegue esconder.
Brühl preserva essa contradição sem tornar o personagem inofensivo. Zoller pode conversar sobre cinema e parecer um rapaz encantado, mas também dispõe do prestígio concedido pelo regime. Ao usar essa influência para levar a estreia ao estabelecimento de Shosanna, ele interfere na vida dela sem considerar sua vontade. A insistência do admirador acaba colocando autoridades nazistas dentro do espaço que a jovem administra.
Shosanna passa a enxergar nessa cerimônia uma oportunidade de vingança. Laurent dá força à personagem sem precisar torná-la expansiva. A proprietária observa, suporta presenças indesejadas e começa a preparar sua ação. Seu plano nasce de uma situação imposta pelos alemães, que esperam encontrar naquela sala uma celebração de seus próprios feitos.
Para entrar, é preciso convencer
Os americanos também se interessam pela estreia. A atriz alemã Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), que trabalha secretamente para os britânicos, participa da operação contra os dirigentes nazistas. Sua fama permite circular entre pessoas às quais os soldados de Raine dificilmente teriam acesso. O tenente britânico Archie Hicox (Michael Fassbender) integra essa frente, na qual falar a língua certa e sustentar uma identidade podem determinar a sobrevivência dos envolvidos.
Kruger dá à atriz uma segurança que depende da atenção constante às pessoas ao redor. Ser reconhecida ajuda a abrir portas, mas também atrai olhares. Para os conspiradores, qualquer conversa pode exigir mais do que uma história decorada. Um sotaque, uma resposta ou um gesto passam a carregar o risco de denúncia.
Tarantino trabalha muito bem essa vulnerabilidade. Ele prolonga encontros porque sabe que o público espera a palavra capaz de comprometer alguém. Há passagens em que uma conversa à mesa provoca mais apreensão que um ataque armado. Algumas digressões pedem paciência e adiam o retorno a Shosanna, mas as melhores cenas recompensam essa espera ao tornar cada participante responsável pelo que diz.
Quando a estreia se aproxima, a proprietária, os agentes e os soldados apostam em iniciativas que não controlam por inteiro. Shosanna conhece o lugar, Bridget conhece aquele meio e Raine confia nos próprios homens. Nenhuma dessas vantagens garante que conseguirão agir sem serem descobertos. Os convidados chegam para assistir à propaganda nazista, enquanto os conspiradores precisam atravessar a recepção e ocupar seus lugares.

