Numa terça-feira à noite, quatro duplas e um trio se encontram em quartos e apartamentos com planos que parecem simples. Alguns querem sexo sem compromisso, outros procuram recuperar o entusiasmo do casamento ou revisitar uma relação encerrada. Em “Sexo Sem Complicações” (2007), o diretor Martin Gero acompanha esses encontros e os embaraços de quem aceita dividir a cama antes de conversar sobre o que espera da experiência. Com Aaron Abrams, Carly Pope e Kristin Booth no elenco, a comédia aposta na distância entre aquilo que as pessoas dizem desejar e os sentimentos que levam para o quarto.
As histórias acontecem separadamente, mas avançam por etapas semelhantes, das primeiras aproximações ao que vem depois do sexo. Gero alterna os grupos para apresentar diferentes graus de intimidade. Há quem conheça o parceiro há anos e quem ainda esteja formando uma opinião sobre a pessoa ao lado. A familiaridade ajuda a dispensar apresentações, mas também traz lembranças, ressentimentos e uma inconveniente capacidade de reconhecer quando o outro está escondendo alguma coisa.
Uma amizade com novas condições
Matt (Aaron Abrams) e Kris (Carly Pope) são amigos de longa data e decidem dormir juntos uma única vez, sem compromisso amoroso. Na avaliação dos dois, a confiança construída ao longo dos anos deveria facilitar o encontro. Ninguém precisa inventar uma personalidade mais interessante nem fingir afinidade para conseguir companhia. O acordo parece confortável até exigir que ambos mantenham os sentimentos dentro das condições estabelecidas.
O interesse dessa história está na fragilidade da proposta. Matt e Kris conhecem um ao outro, mas nunca precisaram lidar com aquela forma de proximidade. Acrescentar sexo à amizade significa abrir espaço para perguntas que antes podiam ficar sem resposta. Quanto cada um deseja o outro? O que esperam da manhã seguinte? A tentativa de preservar a relação existente deixa os dois numa situação delicada, pois qualquer demonstração de afeto pode ganhar um significado novo.
Abrams e Pope têm a seu favor essa intimidade anterior. Seus personagens não começam do zero, e o constrangimento nasce da descoberta de um terreno desconhecido dentro de uma relação antiga. A promessa de uma experiência sem cobranças fica menos convincente quando ambos precisam se preocupar com aquilo que podem perder.
O casamento chega junto à cama
Abby (Kristin Booth) e Andrew (Josh Dean) enfrentam outro tipo de dificuldade. Casados, procuram sair da monotonia sexual, mas carregam uma insatisfação que a disposição para experimentar não resolve sozinha. Eles querem uma noite diferente sem saber conversar muito bem sobre o que deixou de funcionar entre os dois.
Booth dá peso à frustração de Abby, enquanto a relação expõe o desgaste de quem convive diariamente e ainda assim tem dificuldade para formular um pedido. Nesse núcleo, o desconforto é menos passageiro. Uma experiência malsucedida pode ser esquecida por dois desconhecidos, mas Abby e Andrew precisam continuar vivendo com aquilo que descobrem sobre o casamento.
Gero acerta ao aproximar o desejo de renovar a vida sexual da dificuldade de ouvir o parceiro. A iniciativa exige alguma generosidade, inclusive para aceitar informações desagradáveis. O casal pode reservar tempo para o sexo, mas continua sem saber o que fazer com as queixas que chegam junto.
Ex-namorados e primeiras impressões
Mia (Sonja Bennett) e Eric (Josh Cooke) voltam a se envolver enquanto procuram sustentar que superaram a separação. O reencontro oferece a facilidade de estar com alguém conhecido, dispensando a insegurança das primeiras aproximações. Também devolve aos dois o acesso a sentimentos que preferiam manter sob controle.
Existe uma contradição bastante humana nessa escolha. Mia e Eric retomam a intimidade do namoro ao mesmo tempo que tentam demonstrar independência. Cada gesto pode despertar uma expectativa indesejada, e admitir saudade significa correr o risco de ouvir que o outro deseja apenas aquela noite. Bennett e Cooke trabalham com esse cuidado excessivo de quem quer proximidade, mas teme revelar o quanto.
Jamie (Diora Baird) e Ken (Callum Blue), por sua vez, são colegas de trabalho em um primeiro encontro. Ele chega confiante, apoiado na experiência que acredita ter com as mulheres. Ela precisa lidar com as suposições que acompanham essa segurança. A graça surge quando Ken descobre que sua desenvoltura não lhe garante conhecimento algum sobre a pessoa à sua frente.
Esse encontro traz uma comédia mais apoiada no choque entre expectativa e informação. Ken age a partir da imagem que faz de Jamie, deixando pouco espaço para conhecê-la. Sua confiança se torna um problema quando a conversa começa a contrariar o papel que ele havia reservado à acompanhante.
Três pessoas e pouco sossego
Gord (Ennis Esmer) e Inez (Natalie Lisinska) convidam Dave (Peter Oldring), colega de apartamento dele, para uma experiência a três. A proposta já exigiria atenção aos desejos de todos, mas os dois homens acrescentam uma dificuldade doméstica. Eles têm problemas de convivência antes mesmo de entrar no quarto.
O convite, portanto, reúne pessoas que precisarão colaborar apesar das diferenças acumuladas dentro de casa. Gero tira proveito desse desconforto sem precisar inventar grandes acontecimentos. A presença de Dave interfere na intimidade do casal, enquanto Inez participa de uma situação que depende da disposição dos três. Dividir um apartamento, pelo visto, oferece pouca preparação para esse tipo de programa.
Esse é o núcleo mais abertamente cômico, embora também esteja sujeito à limitação que atravessa parte da obra. Ao distribuir os personagens em categorias tão definidas, Gero às vezes os prende demais à situação que representam. O amigo, o ex e o marido precisam de espaço para existir além do problema sexual apresentado naquela noite.
“Sexo Sem Complicações” gira em torno dos personagens que deixam escapar alguma coisa que pretendiam esconder. Uma frustração no casamento, o afeto por um amigo ou a insegurança diante de um ex dão substância aos encontros. A alternância entre as histórias mantém o interesse, ainda que interrompa algumas conversas quando elas começam a ganhar força. Entre propostas ousadas e acordos frágeis, esses homens e mulheres descobrem que conseguir companhia é apenas o começo. Depois de aceitar o convite, ainda precisam dizer ao outro o que vieram buscar.

