Léonard Landry (Laurent Lafitte) é um advogado criminalista francês que sabe defender seus clientes, mas anda fazendo um trabalho péssimo ao cuidar de si. Em “Um Bom Advogado”, longa de 2026 dirigido por Tristan Séguéla e ambientado na França contemporânea, ele sofre uma overdose durante uma audiência. Depois de passar por uma clínica de reabilitação, tem apenas uma semana para preparar a própria defesa e tentar preservar o direito de exercer a profissão. Para alguém acostumado a resolver problemas alheios com uma boa argumentação, depender da confiança dos outros será uma experiência bastante incômoda.
Antes desse colapso, Landry leva uma rotina sustentada por cocaína, álcool e uma confiança desproporcional na própria resistência. Ao sair de uma madrugada de excessos, pede vodca com pimenta ao barman. Ele mesmo gira o moedor três vezes, com o rigor de quem prepara uma receita de família. Acredita que a mistura pode mantê-lo acordado por 48 horas. O cuidado com o tempero contrasta com o descaso dedicado ao restante do organismo, e Lafitte aproveita essa contradição sem transformar o personagem numa figura inofensiva.
O advogado é espirituoso, competente e difícil de acompanhar. Sua energia ocupa as conversas, atropela compromissos e alimenta a impressão de que sempre haverá uma saída. Ao correr entre duas audiências, uma delas assumida contra a vontade, porém, ele desaba diante dos juízes. A cocaína fica exposta no tribunal. A partir desse episódio, o homem que usava a palavra para proteger seus clientes passa a ter contra si um acontecimento que todos naquela sala presenciaram.
Uma semana para salvar a carreira
Séguéla acerta ao apresentar a habilidade de Landry antes de colocá-lo diante da possibilidade de perder o trabalho. O interesse por ele nasce dessa convivência entre talento e irresponsabilidade. É possível reconhecer sua capacidade sem desejar que alguém assim assuma um compromisso importante numa segunda-feira pela manhã. Lafitte sustenta esse desconforto com desenvoltura, tornando o protagonista atraente sem apagar os motivos para desconfiar dele.
Depois da reabilitação, o ator diminui a agitação, mas conserva a vaidade e o gosto por ter a última palavra. Landry não sai da clínica convertido num homem dócil. Continua perspicaz e arrogante, embora agora precise lidar com pessoas que já não aceitam sua segurança como garantia de coisa alguma. A mudança tem interesse porque exige esforço. Ele quer continuar trabalhando, mas seu conhecimento jurídico, por maior que seja, não basta para recuperar a credibilidade perdida.
O prazo de uma semana dá urgência a esse retorno. Landry precisa preparar a defesa enquanto tenta sustentar a sobriedade e voltar a uma rotina associada aos próprios excessos. Não há muito tempo para demonstrar que mudou. Sua profissão depende de uma avaliação que ele pode tentar influenciar, mas cuja decisão pertence a outras pessoas.
Iris tem motivos para desconfiar
A melhor possibilidade de ajuda está em Iris Saint-Didier (Mélanie Laurent), colega de profissão e antiga amante. Ela conhece o talento de Landry, mas também tem razões para receber suas promessas com reservas. O passado entre os dois torna o pedido mais delicado. Aceitar defendê-lo significa assumir uma responsabilidade profissional por alguém cuja conduta já provocou um desastre público.
Laurent dá firmeza a essa resistência. Sua personagem não está ali apenas para ouvir os argumentos do protagonista e reconhecer seu brilho. Iris tem trabalho, interesses e uma opinião própria sobre o homem que lhe pede ajuda. Essa autonomia faz diferença, sobretudo porque Lafitte interpreta alguém capaz de transformar qualquer conversa numa oportunidade de convencer o interlocutor.
A aproximação ganha outro rumo quando Landry recebe informações que podem alterar um julgamento no qual Iris trabalha. Ele passa a ter algo a oferecer. A colaboração entre os dois nasce dessa circunstância, atravessada tanto pela relação anterior quanto pela utilidade do material. Há um desconforto produtivo nessa aliança. O advogado quer melhorar, mas continua recorrendo à habilidade de identificar o que pode despertar o interesse de quem está à sua frente.
Um professor pouco recomendável
Enquanto cuida do próprio caso, Landry também precisa orientar Noé (Anthony Bajon), um estagiário que chega ao trabalho com expectativas difíceis de conciliar com aquele professor. O jovem tem disposição para aprender, mas a convivência o obriga a observar falhas que nenhum currículo respeitável anuncia. Ao lado de um criminalista tão capaz quanto problemático, aprender a profissão inclui decidir quais exemplos merecem ser seguidos.
Bajon oferece um contraponto importante à presença expansiva de Lafitte. As conversas entre os dois dão espaço ao humor e à irritação de conviver com alguém que tem muito a ensinar, desde que consiga parar de criar problemas por alguns minutos. O vínculo também impede que a recuperação de Landry fique restrita ao esforço de preservar o próprio emprego. Há outra pessoa acompanhando seus atos, ouvindo seus conselhos e reconhecendo a distância entre ambos.
É nessa relação que o longa ganha parte de seu interesse humano. Landry precisa exercer alguma responsabilidade diante do estagiário quando ainda luta para administrar a própria vida. Noé, por sua vez, não pode separar com facilidade o aprendizado profissional da decepção com quem o oferece. A autoridade do advogado deixa de depender apenas do que ele sabe.
Lafitte sustenta as curvas do roteiro
Séguéla mantém o ritmo ao aproximar a preparação da defesa, a parceria com Iris e a convivência com Noé. A abertura tem uma velocidade compatível com a rotina descontrolada de Landry. Depois da clínica, sobra mais espaço para perceber sua dificuldade em pedir ajuda e aceitar resistência. Lafitte acompanha bem essa mudança, preservando a personalidade do protagonista mesmo quando ele precisa conter os impulsos.
Algumas complicações interessam menos pelo que revelam sobre as pessoas envolvidas do que pela necessidade de prolongar a incerteza. Ainda assim, o elenco mantém o envolvimento. Laurent e Bajon dão peso às relações que Landry precisa preservar, enquanto Lafitte torna convincente o desejo de continuar exercendo um ofício no qual é excepcional.
Esse homem sabe argumentar por quase qualquer pessoa e agora precisa responder pelos próprios atos. Sua competência merece atenção, sua companhia exige paciência e suas promessas precisam de comprovação. Entre o julgamento que se aproxima e os compromissos que ainda tenta cumprir, Landry terá de oferecer aos outros algo além de uma defesa bem formulada.

