Não somos senhores de ninguém nem de nada. É uma empreitada inglória tentar entender o que se passa no lado mais escuro de cada um, mas deve-se ler os tantos indícios que a vida não se cansa de propagar, e, dessa forma, ter uma noção ainda que vaga de para onde ir. Mais vastos que o silêncio que cerca as galáxias, os mistérios da existência calam fundo na insignificância do homem, e seres humanos somos obrigados a lidar com nossas frustrações, ressentimentos e desejos, mesquinhos, baixos, muitas vezes hediondos, ponto de partida de “Amor Possível”, um drama sobre miudezas que nunca perdem o seu brilho. Como sói acontecer, a visão do cinema asiático para estes assuntos é sempre reveladora e em se tratando do cinema sul-coreano, a surpresa vem no primor do conteúdo e beleza da forma. Em diálogo com o décimo capítulo do “Decálogo” (1989), do polonês Krzysztof Kieślowski (1941-1996), o novo trabalho de Lee Chang-dong mira conceitos e preconceitos de dois casais de condições econômicas distintas que se cruzam numa ocasião inusitada. Evidentemente, há muito mais a dizer — embora nem tudo precise ser dito.
Universo em desencanto
As agruras da classe operária são um fetiche poderoso para Ye-ji, uma documentarista endinheirada que tem numa massiva paralisação laboral o foco de seu próximo filme. Ela conhece Ho-seok, uma fonte valiosa, no funeral de um desses trabalhadores, morto após a demissão, e se antes Ho-seok já era arredio e casmurro, agora, sem emprego, vem ficando deprimido e bebendo demais. Criou-se um grupo de terapia para ajudá-los, mas a exposição pública de lamentos e misérias surte efeito mais imediato, uma estratégia que vai além do previsível. Chang-dong e a corroteirista Oh Jung-mi aprofundam-se nas diferenças das famílias, mormente quando Ye-ji convida Ho-seok e sua esposa para passar o fim de semana na casa de praia que mantém com o marido, Sang-woo. O diretor sabe como tirar daí o arco dramático que sustenta a narrativa a partir de então, também cioso do vigor de seu elenco. Acomodando sensibilidade e técnica, Chang-dong sai de uma história de queima lenta para a explosão, oferecendo a Cho Yeo-jeong, Sul Kyung-gu, Jeon Do-yeon e Zo In-sung a chance de atuações memoráveis.

