Um homem quer descer às profundezas da terra, abrindo sulcos cada vez mais amplos, buscando alguma coisa para chamar de sua. Ele deseja achar seu espaço em meio ao caos da vida, fonte de toda glória e toda perdição, forjando sua natureza indomável na esperança de que esse esforço ajude-o a sufocar as ilusões que sabe impossíveis, rebaixando-se, submetendo-se aos desmandos do estabelecido e de seus donos. Despretensiosamente e com um quê de lirismo, Ibai Abad faz em “O Ouro do Mal” um verdadeiro estudo acerca da ganância, iluminando duas de suas muitas faces. Inspirado em “L’Escanyapobres” (“o explorador dos pobres”, em tradução literal; 1884), novela do catalão Narcís Oller i de Moragas (1846-1930), o segundo filme de Abad retrocede à questão fundiária na Catalunha do século 19, relacionando-a à urgência por uma economia industrializada. Cenário perfeito para o agiota ardiloso e torpe que move a história.
Feridas da pobreza
Oleguer é o tal aproveitador de desvalidos retratado por Oller, alguém que tem erigido uma fortuna oferecendo empréstimos a juros escorchantes a uma gente humilde e indefesa. Ele chega a Pratbell, recriação literária de Valls, cidadezinha no nordeste da Espanha, junto com a construção da ferrovia, e seus negócios vão por um trilho tão seguro quanto execrável. Mediante boa dose de rapinagem, Oleguer desapossa uma família de camponeses de sua fazendola, mas não contava que teria resposta. Cileta está decidida a recuperar sua casa, premissa que Abad e a corroteirista Elisenda Gorgues temperam com uma paixão iminente, sem que isso empane a abordagem sociológica — ao contrário, esse elemento até se fortalece. É o que se vê quando Cileta usa as mesmas armas do algoz para também ter a sua chance de subir na escala social, narrativa que talvez degringolasse num melodrama televisivo, mas que Abad e as atuações de Àlex Brendemühl e Mireia Vilapuig levam ao final cruento e realista.

