Desde o início, fica evidente que alguma coisa de macabro há de acontecer em “Backrooms: Um Não-Lugar”, mas Kane Parsons consegue pôr abaixo muitos dos nossos palpites em cenas que nunca dizem exatamente aonde levarão. Naturalmente, conforme se vê que a situação discrepa da normalidade mais básica mesmo no que toca às atitudes de um homem estranho, oprimido por demônios bem peculiares, sabe-se que haverá lamento, agonia, choro, ranger de dentes e sangue, embora tudo isso chegue sem prévio aviso, seguindo uma lógica própria, a lógica do caos. Aos 21 anos, Parsons é o novo garoto-prodígio do cinema, inventivo o bastante para que seja anunciado como uma promessa da indústria e, no que respeita ao terror, que conhece a potência dessa linguagem para fustigar o horror do real. Em janeiro de 2022, Parsons lançou no YouTube um curta-metragem caseiro em que elaborava a ideia de uma dimensão oculta, que se podia acessar pelo corredor quilométrico que dava numa sala ampla, de luz fria e zumbido irritante. A A24, produtora nova-iorquina voltada a filmes de baixo orçamento, gostou e o resto é história.
Quarto do pânico
No começo dos anos 1990, Clark se divide entre alcoolismo, solidão, autopiedade e uma loja de móveis incapaz de atrair um único cliente, em San José, no pujante coração do Vale do Silício. Seu refresco são as sessões de psicanálise com Mary Kline, já habituada à litania de queixas nas quais ele é sempre uma vítima do mundo cruel que o cerca, nunca tem culpa de nada e merecia o sucesso pelo qual jamais batalhou. Parsons e o corroteirista Will Soodik concentram-se nessa triste figura para explicar muito do que se verá ainda no prólogo, até aludir à lenda urbana que motivou o curta. Mary vai à loja e é convencida a entrar na tal sala, momento que o diretor transforma no retrato de um pesadelo à David Lynch (1946-2025), abusando no caos metódico dos enquadramentos e lançando mão de imagens em VHS — além, claro, da fotografia de Jeremy Cox, que confere a devida atenção ao amarelo gauguiniano das paredes. Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve lideram um elenco afinado, subvertem expectativas e transformam um argumento ligeiro num salto sem rede nos abismos mais intangíveis da mente humana. Dúvidas sobre a lucidez de Clark encerram a acurácia do terror ao deter-se na exposição de tópicos como o mórbido isolamento da nossa pós-modernidade. Kane Parsons encontra um lirismo impublicável no que temos de pior.

