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Um veterano da guerra do Afeganistão tenta sair das ruas de Londres, mas descobre que seu treinamento militar interessa a empregadores perigosos. Esse é o ponto de partida de “Redenção”, longa de 2013 escrito e dirigido por Steven Knight, com Jason Statham no papel de Joey. Sem moradia e dependente do álcool, ele ocupa o apartamento de um desconhecido e aproveita a ausência do proprietário para procurar trabalho. O recomeço ganha a atenção da irmã Cristina (Agata Buzek), uma freira que ajuda pessoas sem abrigo, mas fica comprometido quando o ex-soldado aceita trabalhar para o crime organizado.

Statham costuma interpretar homens que sabem resolver problemas com os punhos. Aqui, a força permanece, mas convive com um desgaste que nem uma boa noite de sono poderia remediar. Joey carrega lembranças da guerra, foge das autoridades militares e vive exposto à violência das ruas. Antes de enfrentar qualquer criminoso, precisa conseguir comida, abrigo e alguma condição de voltar a cuidar de si.

Um teto com prazo de validade

A oportunidade surge durante uma fuga. Depois de ser atacado, Joey entra num apartamento e descobre que o morador está viajando. Roupas e outros recursos do proprietário permitem que ele abandone a aparência de quem passou meses dormindo ao relento. É uma facilidade considerável do roteiro, dessas que pedem certa boa vontade do espectador. Para alguém sem perspectiva de conseguir um endereço, porém, aquela invasão oferece algo precioso. Pela primeira vez em muito tempo, ele dispõe de um lugar onde pode fechar a porta.

Knight associa essa mudança à maneira pela qual Joey passa a ser recebido. Limpo e bem vestido, consegue procurar emprego sem provocar a mesma rejeição. O apartamento ajuda a recuperar uma aparência socialmente aceitável, embora tudo ali pertença a outra pessoa. Sua melhora depende de uma ausência temporária. O proprietário pode voltar, e o hóspede que ninguém convidou terá de sair.

Num restaurante chinês, ele consegue trabalho lavando pratos. A possibilidade de ganhar dinheiro honestamente dura até que sua habilidade para enfrentar homens violentos desperta o interesse de criminosos. O antigo treinamento passa a valer mais do que sua disposição para trabalhar na cozinha. Joey aceita serviços de intimidação, recebe melhor e volta a usar a violência para cumprir ordens.

A caridade e a origem do dinheiro

A irmã Cristina conhece Joey dos atendimentos a pessoas sem moradia. Por isso, acompanha sua recuperação sem se deixar impressionar apenas pelas roupas ou pelo dinheiro. Ele começa a ajudar antigos companheiros das ruas e oferece recursos à religiosa. As doações compram comida, mas também colocam uma dificuldade diante dela. Aceitar aquele auxílio significa conviver com perguntas sobre a origem do que recebe.

Buzek interpreta Cristina com uma reserva que faz bem à relação. Sua personagem tem responsabilidades, convicções e desejos que tornam a aproximação mais complicada do que Joey gostaria. A freira pode acolhê-lo sem aprovar suas escolhas. Quando ele tenta compensar os serviços criminosos com gestos generosos, ela permanece uma presença diante da qual o dinheiro oferece poucas garantias.

Esse é um dos aspectos mais interessantes de “Redenção”. Joey sabe o que significa passar fome e quer ajudar quem continua nas calçadas. Também aceita ferir e ameaçar pessoas para manter a nova renda. A experiência do abandono não o impede de participar da violência que atinge outros. Statham sustenta essa contradição sem precisar torná-lo simpático a cada instante. Há bondade em seus gestos, mas ela não torna seus métodos menos brutais.

Uma busca que impede o esquecimento

Enquanto tenta se estabelecer, Joey procura Isabel (Victoria Bewick), uma companheira dos dias em que vivia nas ruas. Separado dela durante as agressões, quer descobrir onde está e o que lhe aconteceu. Essa busca dá ao suspense uma preocupação concreta. Ele conseguiu um teto, mas deixou para trás alguém que continuava exposta aos mesmos perigos.

Para obter notícias, recorre aos contatos que passa a ter no submundo londrino. Quanto mais depende dessas pessoas, mais difícil fica abandonar os serviços que presta. Knight aproxima a investigação da vulnerabilidade de quem pode desaparecer sem que sua ausência provoque grande mobilização. O interesse está nessa diferença entre a urgência de Joey e a pouca importância que outras pessoas atribuem à mulher procurada.

A relação com Cristina também cresce durante esse período. Diante dela, o protagonista precisa fazer algo para o qual seus músculos ajudam pouco. Escutar, admitir fragilidade e aceitar uma recusa exigem outra disposição. Statham trabalha bem nesses encontros, sobretudo quando deixa o constrangimento surgir em pausas e pequenos gestos. A atuação ganha força porque ele conserva a dureza habitual sem parecer imune ao afeto.

Força física, escolhas frágeis

Knight pesa a mão ao acumular sofrimento e revelações pessoais. Algumas passagens parecem empenhadas demais em justificar a ligação entre Joey e Cristina, embora os atores já tenham estabelecido uma proximidade convincente. A busca por Isabel, as lembranças da guerra, o trabalho criminoso e o envolvimento afetivo nem sempre recebem espaço suficiente. Há ocasiões em que uma relação começa a ganhar interesse e logo cede lugar a outra urgência.

Ainda assim, “Redenção” traz a Statham um personagem que merece atenção para além das cenas de luta. Joey consegue enfrentar agressores, mas tem dificuldade para sustentar uma vida na qual sua força deixe de ser uma mercadoria. O emprego que paga melhor exige que ele permaneça perigoso. A ajuda aos conhecidos depende de uma renda que o prende a novos crimes.

É nesse impasse que o longa encontra seu melhor argumento. O ex-soldado melhora a aparência, volta a trabalhar e recupera algum conforto, mas continua longe de escolher livremente o que fará no dia seguinte. O apartamento tem dono, os criminosos têm exigências e Cristina tem razões para desconfiar. Statham dá peso a esse homem que sabe arrombar uma porta, embora ainda precise aprender a permanecer do outro lado sem destruir a oportunidade que recebeu.


Filme: Redenção
Diretor: Steven Knight
Ano: 2013
Gênero: Ação/Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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